Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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A pátria de chuteiras

04/06/2014 16:13

Junho chegou. Com ele, a Copa verde-amarela. A cidade se enfeita com timidez. Bandeiras tremulam aqui e ali. Vitrines exibem as cores nacionais. Crianças vestem a camiseta da Seleção. Unanimidade? Só o assunto. É futebol pra lá, futebol pra cá. Ao falar na paixão nacional, uma condição se impõe: acariciar a língua como se acaricia a bola.

Mais que cores
Na festa da bola, as cores entram em cartaz. Deixam de ser simplesmente cores. Tornam-se símbolos. Verde e amarelo é Brasil. Vermelho e verde, Portugal. Laranja, Holanda. Azul e amarelo, Colômbia. Branco, Alemanha.

Seres tão importantes exigem tratamento de luxo. É o caso da flexão. Olho ao lidar com ela. Quando a cor é expressa por um adjetivo, a moleza pede passagem: camiseta verde, camisetas verdes; calção azul, calções azuis; chuteira marrom, chuteiras marrons.

Exceção? Há uma. Marinho, mesmo solitário, mantém-se invariável: sapato marinho (sapatos marinho), uniforme marinho (uniformes marinho), calção marinho (calções marinho).

Duplinhas
Com adjetivos compostos, surgem nós nos miolos. Desatá-los é fácil como tirar chupeta de bebê. Se são dois adjetivos, só o segundo se flexiona: bandeira verde-amarela (bandeiras verde-amarelas), uniforme azul-claro (uniformes azul-claros), chuteira verde-rosa (chuteiras verde-rosas).

Truque
A cor é definida por um substantivo? Ops! Cessa tudo o que a musa antiga canta. Entra em cartaz o truque de esconde-esconde. Oculta, como quem não quer nada, fica a expressão cor-de. Ela não aprece. Mas conta: tom pastel, tons pastel (tons da cor de pastel). Vestido laranja, vestidos laranja (vestidos da cor de laranja), gravata vinho, gravatas vinho (gravatas da cor de vinho).

Grafia
Ops! A reforma ortográfica cassou o hífen de palavras compostas. Entre elas, as composições de dois ou mais vocábulos ligados por preposição, conjunção, pronome. Pé-de-moleque, mão-de-obra, tomara-que-caia se escreviam com hífen. Agora estão livres e soltas — pé de moleque, mão de obra, tomara que caia.

As cores entraram na faxina. Antes, cor-de-laranja, cor-de-carne, cor-de-vinho, cor-de-abóbora, cor-de-creme se grafavam desse jeitinho. Agora, mandaram o tracinho plantar batata no asfalto. Ficaram assim: cor de laranja, cor de carne, cor de vinho, cor de abóbora, cor de creme.


Superdica: cor-de-rosa manteve o hífen. É a exceção que confirma a regra.

Palavras de Sérgio Porto
"No futebol, a cabeça é o terceiro pé."

Na trave
Locutores esportivos têm um denominador comum. Pisam os ditongos. No grupo ei, apagam o i. Em vez de treino, treinar e treinador, dizem treno, trenar, trenador. Em lugar de goleiro, golero. Chuteira vira chutera. Terceiro, tercero. Viu? É a pronúncia do cruz-credo. Resultado: bola na trave.

Elegância
Na prática esportiva, há três resultados possíveis. Um: ganhar. Outro: empatar. O indesejado: perder. Ganhe, perca ou empate, seja elegante. Use a preposição nota mil:

1. O time ganha de outro por ou de: Na final, o Brasil ganhará da Alemanha por 3 a 0 (ou de 3 a 0).
2. O time perde para outro por ou de: A Alemanha perderá para o Brasil por 3 a 0 (ou de 3 a 0).
3. O time empata com outro por ou de: A Alemanha empatará com o Brasil por 3 a 3 (ou de 3 a 3).

Leitor pergunta
Famosa repórter da tevê finalizou uma reportagem sobre moda masculina dizendo que os modelos eram "chiquérrimos". Não seriam chiquíssimos?
Reynaldo Bicudo de Souza, lugar incerto

Cliquérrimo, forma afetada de falar, joga no time de elegantérrimo, lindérrimo. E por aí vai. Chiquíssimo é o superlativo mais comum — lindíssimo, elegantíssimo, sofisticadíssimo.


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