Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

publicidade

Manhas do infinitivo

11/06/2014 12:08

Andrea Faria leu a coluna do domingo. Gostou. Sugeriu continuar a caminhada. O tema proposto: infinitivo flexionado. Trata-se de um dos assuntos mais polêmicos da língua. Até hoje, os gramáticos não chegaram a consenso sobre a obrigatoriedade de flexionar tão estranha criatura. Mas concordam em um ponto — respeitar a majestade da clareza.

Sua Excelência

A clareza é o princípio básico que orienta os atônitos falantes. A flexão serve pra indicar, sem ambiguidade, o sujeito do processo expresso pelo verbo. Assim, no duro, no duro, só é obrigatória quando o infinitivo tem sujeito próprio, diferente do da oração principal. Compare:

1. Saí (eu) mais cedo para irmos (nós) ao teatro.
O irmos dá o recado. Eu saí. Nós vamos ao teatro.
2. Saí (eu) mais cedo para ir (eu) ao teatro.

Sem flexão, o sujeito do ir é o mesmo do sair. Eu saí. Eu vou ao teatro.

Viu? Ambos os períodos estão corretos. Mas dão recados diferentes. Veja mais um exemplo do time: Ao sairmos de casa, Maria começou a chorar. Ao sair de casa, Maria começou a chorar.

Dose dupla

Nem sempre só a clareza está em jogo. Muitas vezes é a correção. Aí, não há jeito. É flexionar. Ou flexionar. Quer ver?

É a última oportunidade de Ronaldinho e Eder participarem da Copa.
Para os governadores cortarem gastos, não precisam sacrificar projetos sociais.
A mãe trabalha para os filhos estudarem.
Xô, flexão

A língua tem aversão a excessos. "Xô, redundância", repete sem parar. O infinitivo não foge à regra. Se o princípio básico que lhe rege a flexão é a clareza, não o flexione se outros índices denunciam o sujeito:

1. nas locuções verbais, em que a desinência do verbo auxiliar dá o recado: Vou sair cedo porque adiantei o trabalho. Podemos viajar no fim do mês. Conseguiram vencer os obstáculos.

2. nas orações em que o sujeito da oração principal é o mesmo da subordinada: Saímos (nós) para fazer (nós) a entrega. Trabalharam (eles) aos domingos para juntar (eles) dinheiro. Estudo (eu) para passar (eu) no concurso.

3. quando, precedido da preposição de, preenche duas condições — ser passivo e completar o sentido de adjetivos como fácil, possível, bom, raro e assemelhados: Livros bons de ler. Trabalhos difíceis de fazer. Ações passíveis de contestar. Joias raras de encontrar.
***

Palavras de Voltaire

"A senhora sabe latim? Não. É por isso que me pergunta se prefiro Pope a Virgílio. Ah, minha senhora, todas as nossas línguas modernas são secas, pobres e sem harmonia em comparação com as que falaram nossos primeiros mestres — os gregos e os romanos. Somos apenas violinistas de aldeia."

Leitor pergunta
Sabido que a forma correta é catequizar. Assim, com z. Mas uma questão me quebra a cabeça. Catequese tem s no radical. Por que então o uso do izar? Por que é diferente de analisar e pesquisar?

Antonio, lugar incerto

Olho vivo! Pra se grafar com s, o -ar tem de se colar ao s: casa (casar), pesquisa (pesquisar), análise (analisar).

Catequese tem s no radical. Mas o sufixo não se cola a ele. Se se colasse, teríamos catequesar. Não é catequesar? Convoquemos o -izar —catequisar.

O mesmo ocorre com ênfase. Se o -ar se fixasse no s, teríamos enfasar. Para o enfatizar, estendamos tapete vermelho para o senhor -izar.

(Coluna republicada. A autora está de férias.)

PESQUISA DE CONCURSOS