Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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À beira de um ataque de nervos

23/07/2014 09:29

Quem diria? Dunga deu nó na cabeça dos leitores. A razão é simples. Ao ser questionado sobre a volta ao comando da Seleção, desconversou. Deu esta resposta: "As fantasias são para ser vividas". Ops! Ser vividas? Serem vividas? Ah, dúvida! Será o técnico tão bom de português quanto de bola?

Como se não bastasse, o jornal pôs lenha na fogueira. Escreveu: "Terapeutas conjugais afirmam que, ao trair, homens e mulheres buscam experimentar fantasias difíceis de ser vividas nos arredores do leito conjugal".

Outra vez: difíceis de ser vividas? De serem vividas? É a armadilha do infinitivo. Melhor ir atrás da resposta. Os gramáticos discutem o assunto desde o século 13. Até hoje, nenhuma conclusão. São todos escorregadios como quiabo. Dizem que tem de ser singular. Dali a pouco, retrocedem: "Mas pode ser plural". Quem entende? Nem Deus.

Superdica
O que fazer? Chutar? Não. É
arriscado. Melhor seguir nossa dica. Você vai acertar sempre:

Preste atenção ao verbo. Ele é antecedido de preposição? Adote o singular: Esses são os temas a ser tratados. Há formas a ser desenvolvidas pelos expositores. Muitas de suas afirmações são abrangentes demais para ser aceitas ao pé da letra. Os presentes foram forçados a sair. Os clientes eram obrigados a esperar duas horas na fila. As forças policiais impediram os jornalistas de trabalhar. Estudamos para aprender. Os trabalhadores pararam para reivindicar melhores salários.

Exceção
regra tem uma exceção. Uma só. Não está ligada ao certo ou ao errado. Mas à clareza. Leia a frase:

— Fechamos a janela para não sentir frio.

Certo? Certíssimo. Gramaticalmente a frase não tem reparos. Quem fechou a janela? Nós. Quem não vai sentir frio? Nós (o sujeito oculto é o mesmo da oração anterior).

Mas há um senão: quem vai sentir frio não somos nós. No caso, precisamos dizer quem faz o quê. O jeito é flexionar o infinitivo. Fazê-lo concordar com o sujeito a que se refere:

— Fechamos a janela para não sentires frio. Fechamos a janela para eles não sentirem frio.

Em resumo, guarde isto: infinitivo antecedido de preposição? A regra é o singular. A clareza ficou comprometida? Flexione o verbo. Faça-o concordar com Sua Excelência o sujeito.

Leitor pergunta

Qualquer dicionário mostra a palavra estival como adjetivo referente a verão, estio, seco. O vocábulo festival parece-me ser composto de festa + estival. Portanto, significa festa de verão. Como, então, se justifica a denominação festival de inverno, tão badalada pela mídia brasileira? Parece-me um paradoxo. Qual a sua opinião?

Antônio Cristovam, lugar incerto

As palavras, Antônio, adoram nos enganar. Consultado, o dicionário diz que estival e festival rimam. Mas não se conhecem nem de elevador. Estival, como você disse, deriva de estio (verão). Festival, de festa — sem nenhuma relação com as estações do ano. Daí por que se promovem festivais de inverno. São festas pra lá de alegres que ocorrem com temperaturas baixas. Elas convidam para vinhos, chocolates e aconchegos.

***

Qual a grafia correta: mau cheiro ou mal cheiro? A dúvida sempre bate quando preciso escrever a duplinha.

Francisco Chagas, lugar incerto


A dúvida não é só sua, Francisco. É sua e da torcida do Flamengo:

Bom é adjetivo. Acompanha o substantivo. Opõe-se a outro adjetivo — mau. Veja: mau cheiro (bom cheiro), mau comportamento (bom comportamento), mau humor (bom humor), mau aluno (bom aluno).

Mal é advérbio. Acompanha o adjetivo, o verbo ou o próprio advérbio. Opõe-se a outro advérbio — bem. Assim: mal-humorado (bem-humorado), mal-amado (bem-amado), mal cheiroso (bem cheiroso).

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