Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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Exterminadores de negócios

13/08/2014 12:11

O salão de beleza começou a toda. Clientes de ambos os sexos e de todas as idades mantinham ocupados cabeleireiros, manicures, massagistas, maquiadores, estilistas de sobrancelhas. O negócio foi de vento em popa durante pouco mais de seis meses. Depois, pintou a crise. Em primeiro lugar, os homens sumiram. A mulheres desapareciam aos poucos.

Preocupado, o empresário reagiu. Contratou um gerenciador de crises. O profissional analisou a trajetória do empreendimento desde que abriu as portas. Ouviu fregueses, freguesas e freguesinhos. Eureca! Descobriu. Em reunião com a equipe, desvendou o mistério:

— A língua é a grande vilã. Um cartaz espantou os homens. O diminutivo, as mulheres.

O cartaz

"Corto cabelo e pinto", diz a faixa exibida. A moçada bate os olhos e dá no pé. A razão: como no jogo do bicho, entende o que está escrito. O quê? A tesoura, além de comprimentos, cachos e franjas, corta o pênis. Fica, então, a pergunta: sem o órgão, como fazer xixi? Valha-nos, Deus! Xô!

Nova redação

Propôs, então, novo texto. Bastou a mudança na colocação do termo que provocou a debandada. Pinto, depois de cabelo, deu a impressão de que era substantivo. Mas é verbo como corto. Melhor aproximar os irmãos. Assim: Corto e pinto cabelo.

Diminutivo

A mania vem de longe. Mas se agrava dia a dia. Virou vício. Profissionais parecem treinados a não usar o grau normal dos nomes. É um tal de sapatinho lá, comidinha pra cá, cortininha pracolá. O salão foi atrás. A pedicure pede o "pezinho" da cliente que calça 40. O cabeleireiro corta o "cabelinho" que bate na cintura. A esteticista promete boa "limpezinha" de pele da adolescente com a cara coberta de cravos. Desaforada, a garota deu o recado:

— Não quero limpezinha. Quero limpeza. Quero limpezão.

Deu meia-volta, bateu asas e voou. Com ela, as clientes que não querem ser clientezinhas. E daí? Profissionais tiveram curso. Reaprenderam o grau normal. Pra evitar recaídas, o gerenciador de crise leu este texto de Juarez Fonseca. O personagem é o escritor gaúcho Mário Quintana:

Obrigadinho

Autografa um de seus livros com a tranquilidade costumeira, dizendo uma coisa ou outra para as crianças da fila, quando é apresentado a um ministro de Estado de passagem por Porto Alegre que estava ali para cumprimentá-lo. Curvando o corpo, o político confessa, tentando ser gentil:

— Gosto muito de seus versinhos.

Quintana, abrindo aquela sua expressão típica de incredulidade, revida no mesmo instante:

— Muito obrigado pela sua opiniãozinha.

A vez
Diminutivo nunca tem vez? Tem. Quando indica tamanho pequeno (o pezinho do bebê) ou carinho. O filho chama o pai de 1,90m de paizinho. Também exprime ironia e desqualificação (advogadinho de porta de cadeia).Exemplo em que o diminutivo exprime afeto? Eis um. É do escritor Álvaro Moreira:

Quando eu morrer, com certeza vou pro céu. O céu é uma cidade de férias, férias boas que não acabam mais. Assim que eu chegar, pergunto onde mora lá minha gente que foi na frente. Dou beijos. Dou abraços.

E depois? Depois vou à casa de São Francisco de Assis pra ficar amigo dele, amigo de verdade, tão amigo, tão íntimo que ele há de me chamar Alvinho e eu hei de lhe chamar Chiquinho.

Leitor pergunta

Robin Williams desistiu de viver. Ele suicidou? Ele se suicidou?

Carlos Peixoto, Niterói


Acredite, Carlos. Não existe o verbo suicidar. Só existe suicidar-se. O dicionário, que sabe tudo, só registra a forma pronominal (suicidar-se). Por isso, diga, sem medo de errar: Robin Williams se suicidou.

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