Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

publicidade

Tropeços no adeus

20/08/2014 15:21

Puxa! Um mar de pessoas acompanhou o enterro de Eduardo Campos. A imprensa, claro, fez o que tinha de fazer. Cobriu o evento. Foram horas de narração que obrigaram repórteres a tirar leite de pedra. O esforço sem fim cobrou preço alto — tropeços na língua. Um deles: dar passagem a pleonasmo. O outro: desrespeitar o emprego do prefixo ex.

Xô, excesso
"Mais de 500 mil pessoas seguem atrás do carro que transporta os restos mortais de Eduardo Campos", repetiam profissionais que se revezavam na cobertura. Ops! Seguir atrás joga no time do encarar de frente, manter o mesmo, subir pra cima ou descer pra baixo. Só se encara de frente, só se mantém o mesmo, só se sobe pra cima, só se desce pra baixo. E, claro, só se segue atrás.

A redundância sobra. Veja: O pai encara o filho. O técnico mantém a equipe. O elevador sobe. Depois, desce. O garoto segue a mãe. O filho segue o exemplo do avô. As pessoas seguem o carro de bombeiros.

Qual é?
Liana Sabo acompanhava o enterro com interesse. De folga, sentou-se no sofá em frente da televisão e de lá não arredou pé. Mas, como dizem os chineses, "as árvores querem ficar quietas, mas o vento não deixa". E não deixou. Narradores, ao se referirem a Eduardo Campos, falavam em "ex-político". Ela saltou como boneco de mola. Indignada, ligou pra coluna:

— Falar em ex-político é como falar em ex-pessoa. Mesmo morto, Eduardo deve ser referido como político. É por isso que placas homenageiam o "presidente Getúlio Vargas", o "escritor Graciliano Ramos", o "jogador Garrincha".

É isso, Liana. Quem foi rei, como diz o povo sabido, não perde a majestade. A morte é passaporte para a outra vida. Não para cassar características.

Palmas
"O último volume da biografia de Lira Neto confirma que, havia mais de duas décadas, Getúlio Vargas contemplava o suicídio como única forma de vencer a derrota", escreveu a Veja na pág. 122. Palmas. A revista escapou da cilada do verbo haver na contagem de tempo.

O haver indica tempo passado: Cheguei há duas horas. Viajou há pouco mais de um mês. Trabalho nesta empresa há uma década.

Muitos pensam que contar o tempo é exclusividade do presente (há). Bobeiam. Vez ou outra, o havia pede passagem. Trata-se da correlação verbal. Imperfeito pede imperfeito. É o caso da Veja. O pretérito imperfeito contemplava pede o irmãozinho havia: … havia mais de duas décadas, Getúlio Vargas contemplava o suicídio.

Mais exemplos? Ei-los: Encontrava-se às escondidas com a prima havia mais de cinco anos. Trabalhava na mesma empresa havia 10 anos. Havia cerca de três meses que anunciava a venda do apartamento. Só há dois dias conseguiu interessados. Viva!

Sem confusão
Tempo passado pesa. Daí ter uma letra a mais na referência a ele. Tempo futuro é leve. Fica satisfeito só com a preposição a. Compare: Cheguei há pouco (passado). Chegarei daqui a pouco (futuro). As eleições estão próximas. Daqui a menos de dois meses os brasileiros vão às urnas.

Leitor pergunta
Pode me explicar por que, num texto, ocorre crase e noutro não?

1. Horário reservado à propaganda eleitoral gratuita – Lei 9504/97.

2.Começa nesta terça-feira (19) e segue até 2 de outubro a propaganda eleitoral na televisão e no rádio de candidatos às eleições.

Hemilly Raiky, lugar incerto

Trata-se, Hemilly, de mandamento da regência. No primeiro exemplo, ocorre o encontro de dois aa. Reservado pede a preposição a (reservado a alguma coisa). Propaganda exige o artigo a (a propaganda eleitoral gratuita) — a + a = à.

No segundo exemplo, só aparece um azinho — a propaganda eleitoral. O verbo começar, transitivo direto, dispensa a preposição. Sem o encontro dos dois iguais, nada feito. O acentinho não tem vez. Xô!

Na dúvida, basta apelar para o tira-teima. Substitua o substantivo feminino por um masculino (não precisa ser sinônimo). Se no troca-troca der ao, sinal de crase. Caso contrário, o a fica livre e solto: Horário reservado ao candidato mais votado. Começa nesta terça-feira (19) e segue até 2 de outubro o anúncio eleitoral na televisão e no rádio de candidatos às eleições.

PESQUISA DE CONCURSOS