Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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Que gelaaaaaaaaaaaaaaaaaaado!

25/08/2014 12:31

Tomou banho hoje? Não se trata de qualquer banho. Mas de banho com água pra lá de fria e muito gelo. Famosos entraram na onda. Entre eles, Gisele Bündchen, Lady Gaga, Bill Gates, Neymar, George W. Bush, Fátima Bernardes & cia. de celebridades. A proeza tem objetivo nobre — chamar a atenção para a esclerose lateral amiotrófica. Valha-nos, Deus. O palavrão dá nome a doença rara, que afeta os movimentos.

A campanha ganhou a internet e virou moda. Já arrecadou mais de 3 milhões de dólares. O sucesso se tornou assunto em Europa, França e Bahia. Quando chegou a esta alegre Pindorama, pintou a dúvida. Alguns dizem "eu banhei com água gelada". Outros, "eu me banhei com água gelada". E daí? Ao entrar debaixo do chuveiro, a gente banha ou se banha?

Dois times
Os verbos são seres pra lá de ardilosos. Inconstantes, viram a casaca como nós trocamos de camiseta. É o caso de banhar. Ora ele pede pronome. Ora o dispensa. Como saber? Analise o período:

Maria banha o filho.


Maria funciona como sujeito. O filho, como objeto direto. (O verbo é transitivo direto. O sujeito e o objeto direto são pessoas diferentes.) Às vezes, o sujeito e o objeto são a mesma pessoa: Maria banha Maria.

Pra evitar a repetição e tornar o enunciado mais claro, o pronome ocupa o lugar do objeto direto: Maria se banha. Eu me banho. Tu te banhas. Ele se banha. Nós nos banhamos. Eles se banham.

Mais exemplos
Tornar-se pronominal não é privilégio de banhar. Outros verbos jogam na mesma equipe — o sujeito e o objeto direto são a mesma pessoa. Quer ver? Maria fere a si mesma. (Maria se fere.) Eles machucam o dedo. (Eles se machucam.) A universidade forma o aluno. (O aluno se forma.) O galã apaixona a moça. (A moça se apaixona.) O juiz livra o réu. (O réu se livra.) Nós maquiamos as noivas. (As noivas se maquiam. Nós nos maquiamos.)

E daí?
Vai entrar na onda do banho de balde? Sim? Então se banhe rapidinho. Se demorar, uiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii! Além de sentir frio, você se resfria.

Perdão, leitores
Ops! A última coluna bobeou na resposta ao leitor Hemilly Raiky. Ao analisar a frase "Começa nesta terça-feira e segue até 2 de outubro a propaganda eleitoral na televisão e no rádio de candidatos às eleições", disse que o verbo começar é transitivo direto. Não é. Nesse período, o trissílabo é intransitivo. Escrito na ordem direta, o enunciado fica assim: A propaganda eleitoral na televisão e no rádio de candidatos às eleições começa nesta terça-feira e segue até 2 de outubro.

Em outras construções, o verbo pode mudar a regência. Veja: Ele começa o curso na segunda-feira. (O sujeito é ele. O curso, objeto direto.)

Leitor pergunta

Li esta frase num respeitável site de notícias: "À espera da lista Robinho, diz que vai mandar mensagem a Dunga". Que me diz a respeito da vírgula?
Roberto Barreto, Ipatinga

Dá a impressão de que o autor a jogou pro alto e a deixou no lugar em que caiu. Resultado: cometeu frasecídio. Ao separar o sujeito (Robinho) do verbo (diz), matou o enunciado. Que tal fazer as pazes com a língua? A vírgula separa o adjunto adverbial deslocado. Assim: À espera da lista, Robinho diz que vai mandar mensagem a Dunga.
***

Ele devia comprar uma casa. Ele deveria comprar uma casa. Qual a forma correta?
Inácio Meira, Brasília

A língua de terno e gravata usa deveria. A simples, que anda de camiseta e chinelo, devia. Você escolhe — de olho no contexto.
***

Prefiro ser assim do que não fazer nada. Prefiro ser assim a não fazer nada. Qual a frase nota 10?
Antônio Ramos, Brasília

A regência, Antônio, é um dos assuntos mais espinhosos da língua. Por isso existem dicionários de verbos e regimes. Ali está: a gente prefere alguma coisa a outra: Preferimos cinema a teatro. Ele prefere andar a correr. Prefiro ser assim a não fazer nada.


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