Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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Muda de posição como muda de camiseta

09/09/2014 12:08

Vamos combinar? Todos os anos deveriam ser eleitorais. A razão é simples. Nos dias de campanha, somos pra lá de bem tratados. Viramos amigos, companheiros, colegas, parceiros, patriotas, etc. e tal. Não só. Elogios pipocam a torto e a direito. O mais recente partiu de Dilma Rousseff. "Não somos vira-casacas", disse Sua Excelência em discurso dirigido a mulheres.

As palavras chamaram a atenção. Ouviram-se cochichos aqui e ali. Num deles, uma ilustre senhora, morta de rir, manifestava curiosidade. Queria saber a origem da expressão "vira-casaca". Consultada, a coluna responde. A história vem de séculos atrás. Carlos Manuel III (1701-1771), rei da Sardenha, não descia do muro.

Pra evitar problemas com a França ou a Espanha, vestia as cores de um dos reinos de acordo com as circunstâncias. Ficou 43 anos no poder. De tanto troca-destroca da roupa de cerimônia com duas abas nas costas (casaca), o hábito virou piada e ganhou a boca do povo. Vira a casaca quem defende opiniões, pessoas ou times que antes condenava. Em geral, tem objetivo oculto: tirar vantagem.

Os Silvas sim, senhora
A jornalista Eliane Brum escreveu artigo para o jornal espanhol El País. Título: "Os Silva são diferentes". Refere-se a dois personagens que têm histórias aparentemente semelhantes. Só aparentemente. Porque, no fundo, são pra lá de desiguais. Um: Luiz Inácio Lula da Silva. A outra: Marina Silva.

Ela acertou no enfoque. Mas bobeou na língua. Substantivo próprio tem plural como o comum. Sempre que se fala no assunto, Os Maias, de Eça de Queiroz, vem à tona. Assim como a ilustre família portuguesa, as demais se flexionam conforme manda a gramática: os Castros, os Cavalcantis, os Souzas, os Lafetás. E, claro, os brasileiríssimos Silvas.

Vilão da língua?
Era manhã de segunda-feira. Conceição, como sempre faz, ouvia a CBN. O programa corria solto e animado. Com entusiasmo, o apresentador se referia a mocinhos e a bandidos. De repente, não mais que de repente, convocou "vilões e viloas". Ops!

Ouvintes ligaram. Mandaram mensagens por e-mail. Tuítaram. Estêvão voltou atrás. "Vilões e vilãs", repetia sem parar. Com a pulga atrás da orelha, foi ao Aurélio. Lá estava. Vilão tem dois femininos. Um: vilã. O outro: viloa. Ele respirou aliviado. Escapou do risco de se tornar vilão da língua. Ufa!

Diquinha rimada

"Viagem substantivo,
O g é quem toma conta,
Mas, do verbo viajar,
É j de ponta a ponta.
*
Fretei uma condução
Pra fazer uma viagem,
E assim dou condição
Pra que outros viajem." (Donzílio Luiz de Oliveira)

Leitor pergunta
Tenho dificuldade com o emprego de expressões construídas com o substantivo nível — ao nível de e em nível de. Pode me ajudar?

Cristina Perez, Brasília

As locuções são parecidas, mas não se conhecem de elevador:

Ao nível de significa à mesma altura: Santos está ao nível do mar. Meu cargo está ao nível do cargo de diretor.

Em nível de tem os sentidos de em instância, no âmbito, paridade: A decisão foi tomada em nível de diretoria. O consenso só será possível em nível político. Faço um curso em nível de pós-graduação.

Olho vivo, Cris:
O português contemporâneo gosta do texto enxuto. Excessos não têm vez com ele. Em muitos casos, o em nível de sobra. Quer ver? A decisão foi tomada pela diretoria. Faço um curso de pós-graduação.

A nível de? Cruz-credo! O trio não existe. É praga. Xô!

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