Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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Invasão de privacidade e pancadas na língua

24/09/2014 15:30

Vamos combinar? A política mexe com a vida da gente. Muda o horário dos programas do rádio e da tevê. Toma conta dos assuntos. Invade nossa privacidade sem convite. Resultado: somos obrigados a prestar atenção à fala de candidatos. Eleitores mais atentos não deixam por menos. Anotam discursos e declarações tim-tim por tim-tim. Tropeços aqui e ali merecem comentários, consultas e divulgação na internet. Valha-nos, Deus!

Esta semana, o Bom-Dia, Brasil entrevista os presidenciáveis. É meia hora de falação. Sorteio organizou a fila. Dilma Rousseff ficou na frente. Aécio veio em segundo lugar. Marina, em terceiro. Bloquinho na mão, telespectadores anotaram tudo e mandaram observações pra coluna. Eis as referentes aos primeirões.

Dilma
A presidente estava irritada. Os entrevistadores, ansiosos. Três pancadas caíram pesado na língua. Dois bateram na concordância. O outro, na correlação verbal:

1. No Ideb, melhorou os anos iniciais.
Dilma caiu em cilada pra lá de vira-lata. Chama-se colocação. Com o sujeito depois do verbo, o falante se descuida do mandachuva da concordância. Aí, não dá outra. Bobeia. Posto no lugarzinho dele, o sujeito ilumina o caminho nota 10: No Ideb, os anos iniciais melhoraram.

2. Os juros de mercado é 25%.
Ops! A língua é pra lá de generosa. Não raro, dá aos falantes possibilidades de escolha. O leque abrange concordâncias, regências, grafias. Podemos dizer, por exemplo, tudo é flores ou tudo são flores. Podemos atender o telefone ou atender ao telefone. Podemos falar em juro ou juros.

Foi aí que a presidente pisou a bola. Liberdade não se confunde com libertinagem. Juro é singular. Exige o verbo no singular. Juros é plural. Exige o verbo no plural: O juro de mercado é 25%. Os juros de mercado são 25%.

3. Se eu soubesse que ele era corrupto, ele estava imediatamente demitido.

Sua Excelência se referia a Paulo Roberto Costa. O ex-diretor da Petrobras aceitou colaborar com as investigações da polícia. O homem-bomba, claro, figurou na entrevista. Dilma disse que não sabia de nada. Na resposta, dois escorregões. Uma: a repetição do sujeito (ele). A segunda: a correlação verbal. Melhor fazer as pazes com a língua: Se eu soubesse que era corrupto, ele estaria imediatamente demitido.

Aécio
O candidato do PSDB falou e falou. Na cachoeira de palavras, pisou seres inocentes, que nada têm a ver com a corrida eleitoral. Uma das vítimas: o onde. A outra: a locução haja vista.

1. Nós atendemos 120 mil jovens aonde queríamos atender.

Onde
ou aonde? Quase sempre onde. O aonde só tem vez se preencher duas condições: acompanhar verbos de movimento que pedem a preposição a. É o caso de ir — a gente vai a algum lugar: Aonde você vai? Gostaria de saber aonde você vai. Pra quem não sabe aonde vai qualquer lugar serve.

Sem curvar-se aos dois pré-requisitos, o aonde não tem vez. Só o onde. Glorioso, o dissílabo pede passagem: Onde você mora? Você sabe onde ele está? Nós atendemos 120 mil jovens onde queríamos atender.

2. Uma mente. A outra desmente. Haja visto as mudanças no programa de governo.

Haja visto? É tempo composto do verbo haver (talvez eu haja visto, ele haja visto, nós hajamos visto, eles hajam visto). Não é o caso. O contexto pede a locução haja vista, que significa veja-se: Uma mente. A outra desmente. Haja vista (vejam-se) as mudanças no programa de governo.

Leitor pergunta
No texto: "Os mais de 2 mil quesitos, bastante variados na apresentação, têm vários graus de dificuldades", o bastante é plural ou singular?

Regina Lopes, Brasília


Bastante

pode ser substituído por muito (sempre no singular)? Então é advérbio. Invariável: Comi bastante (muito). Fala bastante (muito), mas não convence. Os mais de 2 mil quesitos, bastante (muito) variados na apresentação, têm vários graus de dificuldades.

Bastantes
acompanha o substantivo. Concorda com ele sem esperneios: Comprou bastantes (muitas) bolsas. Proferiu bastantes (muitos) elogios.

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