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Língua mutante

29/09/2014 11:33

Era inverno. Agora é primavera. No planeta, tudo muda. Água parada apodrece. Em movimento, mantém-se fresca e renovada. A natureza não fica atrás. Vale lembrar o suceder dos dias e das noites, das estações do ano, das fases da Lua. O ciclo da vida humana confirma o vaivém. Nascemos, crescemos, morremos. No percurso, quem não andava anda, quem não falava fala, quem tomava só leite passa a comer cereais, carnes, frutas e verduras.

A vida joga no time dos mutantes. Trocamos de emprego, de amores, de roteiros. Jogadores vestem e despem camisas de clubes diferentes. E a língua? Instrumento de comunicação das pessoas, varia de acordo com o avanço do tempo e as circunstâncias dos falantes. Concordâncias, regências, colocação, grafias trocam o passo segundo a música. Os significados servem de exemplo. Quando vieram ao mundo, vocábulos diziam uma coisa. Agora dizem outra. Quer ver?

Formidável

Quando nasceu, há mil anos, formidável era latina. Na língua dos Césares, queria dizer assustador. Com o tempo, a arteira pulou a cerca. Adotou outras nacionalidades e outros significados. Nesta terra descoberta por Cabral, ganhou a acepção de maravilhoso, espetacular. Uma eleição formidável pra todos nós.

Ginástica
O verão chegou. Com ele, a preocupação com o corpo. O calorão exige pouca roupa. Braços, pernas e barriguinhas ficam à mostra. Pra fazer bonito, a moçada invade academias. Tênis adequado e roupas charmosas fazem parte do programa. Mas lá atrás, quando ginástica pintou no pedaço, calçados e vestimentas eram dispensáveis. Por quê? Na Grécia, berço do vocábulo, gymnos significava nu. Gimnazo (ginásio), treinar peladão.

Senador
Ora vejam! Senex, senador em latim, quer dizer velho. Daí senil, senectude, senilidade. Quem chegava à velhice lúcido, entrava no clube dos sábios. Respeitados, seus membros aconselhavam os jovens. Rapazes e moças respeitavam-nos como os gregos respeitavam os oráculos.

Mahatma Gandhi ensinou:
"Mantenha seus pensamentos positivos porque seus pensamentos se tornam palavras. Mantenha suas palavras positivas porque suas palavras se tornam suas atitudes. Mantenha suas atitudes positivas porque suas atitudes se tornam hábitos. Mantenha seus hábitos positivos porque seus hábitos se tornam valores. Mantenha seus valores positivos porque seu valores se tornam seus destino."

Marina no Bom-Dia, Brasil

Segunda foi a vez de Dilma. Terça, de Aécio. Quinta, de Marina. A acriana tinha meia hora pra responder a perguntas. Telespectadores estavam duplamente atentos. Em primeiro lugar, pra entender melhor as propostas da candidata. Em segundo, pra confirmar uma bobeira. Em falas anteriores, ela teria trocado bolas linguísticas. Perda tomou a vez de perca. E…?

"É a infraestrutura que leva à perca de boa parte da produção", disse ela. A turma se alvoroçou. Alguns davam nota 10 para o substantivo. Outros, zero. E daí? O jeito foi dar um jeito. Pedir ajuda ao Aurélio. Ops! Ele registra o substantivo perca com duas acepções. Uma: espécie de peixe. A outra: forma popular derivada do verbo perder: perda, prejuízo, dano.

O dicionário diz que Marina está correta. Por que a reação? A língua é como a mulher de César. A primeira-dama romana não só tinha de ser honesta. Tinha de parecer honesta. A língua não só tem de ser correta. Tem de parecer correta. A escola ensina que perca é forma do verbo perder (que eu perca, ele perca, nós percamos, eles percam). Perda é o substantivo (a perda do poder aquisitivo, as perdas na bolsa, perda de boa parte da produção).

Resumo da ópera: a forma está certa, mas parece errada. É a tal história da mulher de César.

Leitor pergunta

Na origem, medíocre e ordinário não ofendiam. Verdade?

Jaime Costa, Uberaba

É isso. Na origem, medíocre é mediano, o que está na média. Ordinário, o que está na ordem. Daí se dizer lei ordinária. Trata-se de lei como a maioria das leis — sem nada de extraordinário.

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