Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

publicidade

Sua Excelência o leitor

06/10/2014 10:18

Há leitores e leitores. Alguns se interessam só pela notícia. Leem as manchetes, os destaques e as legendas. Sentem-se satisfeitos. Outros são seletivos. Passam as páginas e só param em temas que atrai — colunistas, horóscopo, programação cultural. Existem, ainda, os globais. Prestam atenção não só nos fatos, mas também na forma como são apresentados. Ilustrações, gráficos, texto, tudo merece análise. Nada lhes escapa.É o caso do Menezes. Ele escreve: "Um errinho aqui, outro ali, um defeitozinho acolá — tudo passa. Mas aquele "cujo o", na página 8 do jornal, pega mal demais. Alerte a moçada por aí, nem que seja pela milésima vez". Leitor manda. Nós, submissos, conhecemos nosso lugar. Obedecemos ou obedecemos.

Sofisticação

Vamos combinar? O cujo é pra lá de sofisticado. Pronome relativo, pertence à família de que, o qual, onde. Requintado, impõe três regras pra ser empregado. Pra atendê-las, basta manter as antenas ligadas e a preguiça adormecida em berço esplêndido.

Primeira exigência
Tenha cuidado com a separação das sílabas: ele morre de vergonha de ficar com um pedaço lá e outro cá. É justo. A primeira sílaba, no fim da linha, vira palavrão (cu-jo). Feito o estrago, o constrangido só encontra uma saída. Consola-se com federal (fede-ral). Os dois se abraçam e choram. Depois se vingam. Cobrem o autor de vexames.

Segunda exigência
Deixe o artigo pra lá. Cujo tem aversão a o, a, os, as. Nunca escreva cujo o, cuja a. O casamento pega mal como bater em mulher, cuspir no chão ou passar a criança pra trás na fila. Foi nessa esparrela que o jornal caiu: "O governo sancionou a Lei Anticorrpção, cujo o objetivo é aumentar o controle de atos ilícitos". Xô, artigo!

Terceira exigência
Dê atenção à posse. O cujo, como todo pronome relativo, tem uma função: junta frases. No caso, uma delas tem de indicar posse. A presença do dissílabo evita a repetição de palavras. O enunciado fica chique como pérolas negras. Veja:

O governo sancionou a Lei Anticorrupção. O objetivo da Lei Anticorrupção é aumentar o controle de atos ilícitos
.

Feio, não? A repetição torna o enunciado monótono. O jeito? Recorrer à bondade do relativo. Pra dar ideia de posse, o glorioso cujo pede passagem:

O governo sancionou a Lei Anticorrupção, cujo objetivo é aumentar o controle de atos ilícitos
.

Outros exemplos
O PSDB está com o queijo e a faca na mão. O candidato do PSDB (=dele) ao governo paulista vai levar no primeiro turno.

O PSDB, cujo candidato ao governo paulista vai levar no primeiro turno, está com a faca e o queijo na mão.

A mãe pediu indenização ao Estado. O filho da mãe (=dela) morreu em confronto com a polícia.

A mãe cujo filho morreu em confronto com a política pediu indenização ao Estado.

O escritor conversou com os estudantes. O livro do escritor (=dele) foi adotado.

O escritor cujo livro foi adotado conversou com os estudantes.

Tropeços comuns
O brasileiro morre de medo do cujo. Mas, orgulhoso, esconde a verdade. Alega feiura do coitadinho. Mentira tem perna curta. Volta e meia, aparecem mostrengos como estes:

A mulher que o filho morreu vai deixar a cidade.

Paulo Coelho, que os livros fazem sucesso no mundo, é imortal da ABL.

Vamos à correção: Assim: A mulher cujo filho morreu vai deixar a cidade. Paulo Coelho, cujos livros fazem sucesso no mundo, é imortal da ABL.

Leitor pergunta
Nada se compara com o tratamento especial do meu pai? Nada se compara ao tratamento especial do meu pai? Qual a regência correta?

Marcos Aurélio Melo, lugar incerto

Relaxe, Marcos. O dicionário de regência verbal dá nota 10 às duas construções. Escolha a que lhe soa melhor. O resultado é um só — acertar ou acertar.

PESQUISA DE CONCURSOS