Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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Boca de urna e boca do povo

08/10/2014 11:21

A palavra mais falada? É ela, eleição. Depois da Copa, a trissílaba virou celebridade. Está no rádio, na tevê, na internet, na boca do povo, de repórteres e comentaristas. Candidatos, eleitores, marqueteiros & cia. democrática acompanham a campanha e as pesquisas. Mas, ao falar em números e índices, ops! Muitos tropeçam em outra vedete do momento. É a percentagem. Grafia, concordância e colocação despertam dúvidas. Vamos a elas? Prepare-se para aventura recheada de liberdades, libertinagens e regras.

De liberdades...

Percentagem ou porcentagem? Tanto faz. A primeira forma se inspirou no inglês. Na língua de Sua Majestade, os súditos dizem percentage, filhote de per cent. A segunda vem da terrinha. Em Pindorama, dizemos por cento. Daí porcentagem.

Percentual ou porcentual? Você escolhe. Mas vale a coerência. Se preferir percentagem, olhe com simpatia para percentual. Se se sentir inclinado por porcentagem, arraste as asas para porcentual. Ah!

E a escrita? Há duas formas. Uma: com todas as letras. É o caso de sessenta por cento. A outra: com algarismos — 60%. Qual a melhor? A segunda. É econômica e de leitura rápida, exigências do mundo moderno.

A maior exigência, porém, é a clareza. Diante dela, cessa tudo o que a musa antiga canta. Se escrever mais de um valor da percentagem (ou porcentagem), esbanje. Repita o sinal em cada um deles: A inflação deve ficar entre 5% e 7% (nunca entre 5 e 7%). Os descontos vão de 10% a 50%. Uns 30% ou 40% da população vivem com um salário mínimo.

...libertinagens

A concordância de percentagem incendeia a cuca da moçada. Estudantes, concursandos, redatores, jornalistas, funcionários públicos, profissionais liberais, todos tremem nas bases diante de construções como esta: 30% da população vive (ou vivem?) com um salário mínimo mensal.

Generosa, a língua aceita as duas possibilidades. E justifica: o plural concorda com o número (30). O singular, com a expressão que vem depois do numeral (população).

Eis outros exemplos: 40% do empresariado quer (querem) remarcação de preços. Cerca de 20% da safra de grãos se perde (perdem) no caminho. Informa-se que 1% dos soldados desertou (desertaram).

Atenção, muita atenção. Embora a dose dupla seja aceita, há forte preferência pela esnobação do número. Boa parte dos estudiosos do idioma prefere a concordância com a expressão que vem depois do numeral: 40% do empresariado quer remarcação de preços. Cerca de 20% da safra de grãos se perde no caminho. Informa-se que 1% dos soldados desertaram.

...e três regras
1. A língua é um serzinho arteiro. Versátil, muda de forma e de lugar. Às vezes, o verbo vem antes do número. Aí, concorda com o número: Talvez consiga promoção 1% dos funcionários. Na eleição, renovaram-se 43% dos deputados. Perderam-se 20% da safra de grãos.

2. Cuidado! Não caia em armadilhas. Se só existe o número, o verbo não tem saída. Acerta-se com ele: Os alunos tiveram rendimentos diferentes: 80% conseguiram notas acima de 8; 12% ficaram com 9; só 1% gabaritou a prova. Da população, 40% aprovaram o governo.

3. Se o número vem acompanhado de artigo ou pronome, ele dita a regra: Os 70% da população aprovaram a medida. Aqueles 5% da tropa desertaram. O 1% dos candidatos desistiu do concurso.

Nobel
Começou a premiação mais cobiçada de Europa, França e Bahia. Qual é? É o Nobel. Ao se referir a ele, bobear é proibido. Pronuncie Nobel como Mabel e papel. A sílaba fortona é a última.

A diferença
Uma letra faz a diferença. O governador eleito posa. O avião pousa.

Leitor pergunta
Adoro vasculhar a intimidade das palavras. Na pesquisa, descobri que o léxico português tem palavras de origem tupi, latina, grega, francesa, inglesa, alemã, espanhola, árabe e tantas outras. Minha dúvida: o japonês também frequenta nosso dicionário?

Carlinhos Melo, Sobradinho

Claro que sim. Eis contribuições de olhinhos puxados: bonsai, do-in, gaijin, gueixa, haicai, jiu-jítsu, judô, camicase, caraoquê, caratê, carateca, quimono, ninja, saquê, samurai, sashimi, sushi, tatame, zen.

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