Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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Sua majestade a modéstia

27/10/2014 15:11 | Atualização: 27/10/2014 15:18

Ufa! A campanha eleitoral chegou ao fim. Foram quatro meses de exposição. Não faltaram promessas nem mágicas. Embalados para presente, os candidatos viraram super-humanos. Pra eles o impossível não existe. O show marqueteiro mexeu com a cabeça do eleitor. Ele fez as malas pra morar no país da Dilma e no estado do Aécio.

Como chegaram lá? Além de sorrisos, gestos ensaiados, olhares pidões, o discurso sobressai. A futura excelência esbanja próclises e mesóclises. Acerta formas rizotônicas e arrizotônicas. Sobretudo evita o eu. O pronomezinho dá a impressão de arrogância. Saída? Os sabidos recorrem a truques. Partem para o plural de modéstia.

Faz de conta
É mágica. Em vez de eu, usam nós. Mas o nós continua eu. Por isso, o emprego da falsa modéstia impõe regras. O verbo vai para o plural. Mas adjetivos e substantivos ficam no singular:

Nós somos candidato corajoso e preparado para governar.

Nós somos modesto e pobre. Queremos melhorar a vida dos brasileiros.

Sem o truque, o nós se referiria a mais de uma pessoa. Aí, as frases seriam: Nó somos candidatos corajosos e preparados para governar. Nós somos modestos e pobres. Queremos melhorar a vida dos brasileiros.

O eu dilmês
E Dilma? Chamou a atenção no discurso da presidente o uso e abuso da primeira pessoa. O plural de modéstia passou a quilômetros de distância de palanques, rádios e televisões: O meu governo isto, o meu governo aquilo. Eu fiz isto, fiz aquilo. Eu mando isto, mando aquilo. Eu vou fazer isto, vou fazer aqui. Ufa!

Resultado: Dilma passou a imagem de autoritária e arrogante. Culpa da língua. Olho vivo! A percepção é mais importante do que o fato. Reagimos levados mais pelo que sentimos como verdade, não pela verdade crua e nua. Como diz o outro, a percepção é tudo. Aprenda a administrá-la.

Por falar em percepção…
Leni Arredondo ensina: "Um movimento positivo com a cabeça, um gesto, uma sobrancelha levantada, um sorriso ou um franzir de cenho — tudo o que você faz envia sinal que causa impressão nas pessoas".

Jeová dos Santos comenta
"Dia desse, um bacharel, enteado meu, perguntou-me por quanto eu havia comprado `quinhentas gramas de farinha de tapioca´. Respondi que não havia comprado grama alguma, mas quinhentos gramas de farinha de tapioca. Ele, indignado, protestou: `Estou falando no usual, no coloquial e continuarei falando assim´. Ah, credo!

José Avelino opina
"Li na coluna de quarta a explicação para o uso da inútil e dispensável crase. Se o Aécio vai a Bahia ou se o Aecio vai à Bahia, qual o motivo do acento se o sentido do recado não foi prejudicado? É sempre bom lembrar a sábia frase: `Enquanto os franceses perdiam tempo acentuando as palavras, os ingleses tratavam de conquistar o mundo`".

Roldão Simas ensina
"No sábado, o Correio Braziliense abriu manchete na primeira página: `Serial killer conta como assassinou 39 pessoas´. Que coisa! Desprezamos nosso idioma, esquecendo o nome consagrado: maníaco homicida. Lembro-me de Francisco de Assis Pereira, que ficou conhecido como maníaco do parque porque, em 1998, estuprou e matou seis mulheres e tentou matar nove no Parque do Estado, na capital paulista".


Leitor pergunta

"Você nos abandonou a todos." Está correta a frase?
Carlos Henrique, lugar incerto

Está. A todos reforça o nos. Podemos cortar um ou outro. A frase continua correta. Mas perde ênfase. Compare: Você nos abandonou. Você abandonou a todos.

*

"Dúvida por quê?" Há necessidade de vírgula na frase?
Jacirene Santana, lugar incerto

Não. Temos aí uma frase nominal (sem verbo). Não há como analisá-la sintaticamente. Mas, qualquer que seja a ordem do pronome interrogativo, não há necessidade de vírgula: Por que dúvida? Duvida por quê?


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