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Vitória de Pirro

03/11/2014 16:59

Quem pode mais? A queda de braço foi na terça. No primeiro dia de reunião plenária da Câmara dos Deputados, Suas Excelências peitaram a presidente. Derrubaram o decreto que criou os conselhos populares. Comemoraram. Gilberto Carvalho, secretário-geral de Dilma, desdenhou o feito. Classificou-o de "vitória de Pirro".

"O que é isso, companheiro?", perguntaram amigos, inimigos e muristas. A resposta vem de tempos idos e vividos. Foi há 2.293 anos. Pirro, rei de Épiro, venceu os romanos na batalha de Asculum. Pra chegar lá, perdeu os melhores homens e as melhores armas. Boa parte das tropas foi dizimada. Ao ver o estrago, Sua Majestade exclamou: "Com mais uma vitória como essa, estarei arrasado".

O tempo passou, mas a história permaneceu. E, com ela, a expressão. Vitória de Pirro dá nome a êxito custoso, conquistado com muitos sacrifícios. Passará. Depois de um, dificilmente virá outro. Valerá a pena? Você decide.

Raio de Zeus
Surpresa! Três dias depois da eleição, a notícia caiu como o raio de Zeus. O Banco Central aumentou a taxa de juros. O fato ganhou manchetes em Europa, França e Bahia. Pintou, então, uma questão. Juro ou juros? Tanto faz. Singular ou plural, o resultado é o mesmo. Empréstimos e prestações doerão mais no bolso.

Mas, como diz Graciliano Ramos, "liberdade completa ninguém desfruta. A gente acaba oprimido pela gramática ou pelo Dops". A liberdade do número tropeça na restrição da concordância. Juro pede singular. Juros, plural: O juro no Brasil é alto. Chega a 11,25%. Os juros no Brasil são altos. Chegam a 11,25%.

Vexame à italiana
Vamos combinar? As prisões brasileiras são fiasco nota 1.000. Pizzolato tirou proveito do descaso que beira a desumanidade. Condenado pelo Supremo Tribunal Federal, o ex-diretor do Banco do Brasil fugiu pra Itália. Lá, alegou que escapou do Brasil pra salvar a vida. As cadeias verde-amarelas matam. A Justiça italiana aceitou o argumento. Libertou-o.

"Os presídios são enxovias", disse o procurador-geral da República. Ops! A palavra chamou a atenção. O significado e a grafia puseram pulgas atrás da orelha de brasileiros. E daí? O dicionário informa que enxovia quer dizer masmorra, calabouço, recinto insalubre, antessala do inferno. Escreve-se com x porque o en- tem alergia ao ch. É, por isso, seguido de x: enxoval, enxugar, anxofre, enxame, enxurrada, enxuto.

Sem generalização
Na língua como na vida, a família fica acima de tudo. Se a palavra primitiva se escreve com ch, a duplinha permanece nas derivadas. É o caso de cheio, encher, enchente.

Treinar , treinar, treinar
Você tem poder de encher um auditório para ouvir o que vai dizer? Olho vivo. Siga o conselho de Leni Arredondo: "Encare a apresentação como um esporte competitivo. Sua medalha é a atenção do ouvinte. O fato de as pessoas estarem assistindo não significa que estejam prestando atenção. Você precisa conquistar e prender o interesse delas".

Mototáxi
"Sapo não pula por boniteza, mas porém por precisão", escreveu Guimarães Rosa. Os brasileiros conhecem a ladainha de cor. Viram-se como podem. Diante do caos do trânsito, fizeram o que sabem fazer. Deram um jeitinho. Substituíram o carro pela moto. Alguns compraram o veículo. Outros apelam para o mototáxi. A novidade se escreve assim: coladinha.

Leitor pergunta

Sou apreciador da tua coluna, no jornal O Sul. Adoraria que me esclarecesses as dúvidas sobre o substantivo sem-terra: ele tem plural? Escreve-se com hífen? A regra vale para sem-teto?
Eugênio Cechin, Porto Alegre

A reforma ortográfica, como o nome diz, foi ortográfica. Alterou a grafia de palavras. A mudança abrange letras, acentos, hifens e travessões. Manteve-se distante de pronúncia, morfologia e sintaxe. Assim, o que ficou de fora de fora está. Por exemplo: o trema caiu. A ausência dos dois pontinhos não significa mudança na pronúncia. Grafamos tranquilo, mas pronunciamos tranqüilo.

O hífen, Eugênio, é castigo de Deus. As simplificações da reforma são bem-vindas, mas poderiam ter ido mais fundo. Um dos beneficiados pelo mexe-mexe toi o sem. Antes, nomes formados com as três letrinhas ora tinham o tracinho, ora não. Agora todos têm: sem-terra, sem-teto, sem-banco, sem-emprego.

Quanto à flexão, as duplinhas são sem-sem — sem feminino ou masculino, sem singular ou plural: O sem-terra-saiu. A sem-terra saiu. Os sem-terra gaúchos saíram. As sem-terra gaúchas saíram.

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