Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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O choro de Deus

17/11/2014 16:37

A palavra mais importante da língua? É o verbo. Antes de duvidar, pense em pormenor simples, mas que fala por si. Existem orações sem sujeito, mas não existem orações sem verbo. Daí a citação de Eno Teodoro Wanke. Nos idos de 1929, ele escreveu: "No princípio era o verbo. Depois, veio o sujeito e os outros predicados — os objetos, os adjuntos, os complementos, os agentes, essas coisas. E Deus ficou contente. Era a primeira oração".

Que pena! A alegria do Senhor durou pouco. No país do jeitinho, nem o comunismo quis fixar raízes. Temia a desmoralização. O verbo, coitado, não teve igual sorte. A desonra veio rapidinho. Notícias da semana servem de exemplo. Assuntos que foram manchete pisaram o mandachuva da frase sem piedade. Quatro vítimas sobressaíram: maquiar, mediar, intervir e pôr.

Vítima 1
O governo entregou os pontos. Gastou demais. Em 2014, tinha de economizar R$ 99 bilhões para pagar juros da dívida. Não deu conta. Ficou no vermelho em R$ 25,5 milhões. A farra leva pro xilindró. E daí? O jeito foi dar um jeito. O Planalto encaminhou ao Congresso projeto que disfarça o desastre fiscal.

Veio ao cartaz o verbo maquiar. "O governo maqueia as contas", escreveram jornais e blogues. Rádios e tevês não ficaram atrás. Repetiram "maqueia" à exaustão. Bobearam. Maquiar se conjuga como premiar: premio (maquio), premia (maquia), premiamos (maquiamos), premiam (maquiam).

Como na natureza, na língua nada se perde. Tudo se aproveita. A dica de conjugação do verbo maquiar não serve só pras manobras de Suas Excelências. Serve pra nós, mortais. O trato que dá charme a pele, olhos, sobrancelhas e lábios se flexiona do mesmo jeitinho. Dizer "eu me maqueio pra festa"? Valha-nos, Deus! Melhor: "Eu me maquio pra festa".

Vítima 2
Há uma semana empresas de ônibus do Distrito Federal cruzaram os braços. Deixaram 200 mil usuários a pé. Entra dia, sai dia, nada muda. Quem paga o pato? Estudantes que não chegam à escola, profissionais que faltam ao trabalho, comerciantes que perdem vendas. E daí?

O Ministério Público entrou na jogada. A imprensa anunciou: "Procuradores mediam negociações entre as partes". Ops! Mediar se conjuga como odiar: odeio (medeio), odeia (medeia), odiamos (mediamos), odeiam (medeiam).

Resultado: o desânimo tomou conta da população. Se os repórteres tivessem dito que "procuradores medeiam o conflito", a notícia teria merecido banda de música e tapete vermelho. Agora, é apostar na sorte.

Vítima 3
Sem-teto invadiram prédio na capital paulista. A Justiça entrou na briga. Mandou desocupar a área. Na foi fácil. Os recém-chegados reagiram. Foi um corre-corre. A repressão entrou em cartaz. Notícia: "Polícia interviu no conflito". Uiiiiiiiiiiiiiiiiiii! O verbo geme até hoje.

Explica-se. Intervir deriva de vir. Como filho de peixe peixinho é, um e outro se conjugam do mesmo jeitinho. Assim: venho (intervenho), vem (intervém), vimos (intervimos), vêm (intervêm); vim (intervim), veio (interveio), viemos (interviemos), vieram (intervieram).

Conclusão: A polícia interveio no conflito.

Vítima 4
A Casa Civil obrigou os ministros a entregar os cargos. Quinze obedeceram. O fato, claro, ganhou espaço na mídia. Lá e cá se leu que Suas Excelências "puzeram os cargos à disposição". Viu? Pôr pegou os bobos na casca do ovo. O xis da cilada está no infinitivo. Se o nome do verbo tem z, sempre que soar z, a lanterninha do alfabeto entra em cartaz. Se não tem z, a letrinha fica banida da conjugação. Compare:

Fazer (faz, fazemos, fazem; fiz, fez, fizemos, fizeram; fizer, fizerem; fizesse). Dizer (diz, dizemos, dizem). Pôr (pus, pôs, pusemos, puseram; puser, pusemos, puserem; pusesse, puséssemos, pusessem). Querer (quis, quisemos, quiseram; quiser, quisermos, quiserem; quisesse, quiséssemos, quisessem).

É isso: Quinze ministros puseram o cargo à disposição.

Leitor pergunta

Nos três últimos anos? Nos últimos três anos? Qual o correto?
Renato Mendes, lugar incerto

Ambas as formas merecem nota 10. Escolha. É acertar ou acertar. Oba!

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