Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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Criança diz cada coisa...

19/11/2014 15:09 | Atualização: 19/11/2014 15:10

Pedro Bloch sabia das coisas. Pediatra, prestava atenção às histórias contadas pelas crianças. Depois, anotava tudo e publicava na revista Pais e filhos. Roberto Freire, colaborador da coluna, encaminhou uma para os leitores. Ei-la:

Uma menina estava conversando com a professora. A mestra disse que era fisicamente impossível uma baleia engolir um ser humano porque, apesar de ser um mamífero enorme, tinha a garganta muito pequena. A garota bateu pé: afirmou e reafirmou que Jonas tinha sido engolido por uma baleia. Irritada, a professora repetiu que uma baleia não poderia engolir nenhum ser humano. Era fisicamente impossível. Seguiu-se este bate-papo:

-- Quando eu morrer e for pro céu, vou perguntar a Jonas.
-- E se Jonas tiver ido pro inferno?
-- Aí a senhora pergunta.

Por falar em ir…
Viu? Criança sabe mesmo das coisas. A garota acertou em cheio a regência do verbo ir. A gente pode ir a ou ir para. Vai a quem vai e volta, rapidinho: Vou ao clube. Vamos ao cinema. Fomos ao Rio conhecer os cartões-postais do Brasil. Vocês foram ao parque no domingo? Ou preferiram ir à missa?

Ir para joga em outro time. Trata-se de ir para ficar bom tempo: Vou para Londres fazer minha pós-graduação. Vou-me embora pra Pasárgada. A menina da história de Pedro Bloch tinha duas certezas. Uma: ao morrer, ela iria pro céu. A outra: a professora iria pro inferno.

Peladões
A moda pegou. Sem mais nem menos, peladões ocupam as ruas de grandes cidades. A história começou em Porto Alegre. Homens e mulheres apostaram corrida nuzinhos. Depois, foi a vez de São Paulo. Um macho, sem uma peça de roupa sobre o corpo, percorreu a Avenida Paulista falando ao telefone. O que eles querem? Ninguém sabe. Enquanto se investiga a razão oculta atrás da nudez, vale uma diquinha de português. Nu, como cru, é nuzinho mesmo. Monossílaba terminada em u, não aceita acento nem a pedido de Adão e Eva.

Nu e urubu

Nu rima com caju, urubu e Aracaju. Uma e outras não aceitam acento. É que os monossílabos tônicos jogam no time das oxítonas. Os terminados em i e u agradecem, mas dispensam o agudão. Xô!

Dedo-duro
A palavra mais em alta em tempos de lavagem de roupa suja? É ela mesma. Delação, que rima com corrupção, que significa podridão. Quando nasceu, a latina delatione queria dizer ato de entregar. Como quem fica parado é poste, a palavra ganhou outra acepção. É denúncia. Em português que todo mundo entende: deduragem, que vem de dedurar, que nasceu de dedo-duro.

Leitor pergunta


No período "Quem estuda não vota em aventureiro", penso que não há vírgula depois da palavra estuda. Quem estuda é uma oração que funciona como sujeito da 2ª oração não vota em aventureiro. As pessoas colocam a vírgula. Estão erradas, não?"
Regina Coeli, BH

E como! Separar o sujeito do predicado tem nome. É frasecídio. Em bom português: mata-se o enunciado. É crime.

***

Meu idioma é o francês. Graças a ele, adquiri boa base no português. Mas tenho muitas dúvidas. Uma delas: a grafia de georreferenciamento. Por que não se escreve geoGGrafia, geoLLogia?
Guy José, Brasília

Em português, Guy, só se dobram duas consoantes: r e s (caro, carro; caso, casso). Simples assim.

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