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Gol contra do Verdão

24/11/2014 16:37

Em dia de festa, o Palmeiras apanhou. Levou dois gols do Sport. Não fez nenhum. "O que aconteceu?", perguntavam gregos, troianos e torcidas atônitas. A resposta não estava no gramado. Estava na língua. "O bom filho à casa torna", diz frase que figura na camiseta do time.

Com ela, os dirigentes da equipe paulista miravam um gol de placa — homenagear a volta do Verdão ao velho estádio novo. Mas pisaram na bola. Puseram crase onde crase não há. Esqueceram-se (ou nunca aprenderam) que o acento grave indica o casamento de dois aa. Um deles é a preposição. O outro, quase sempre, o artigo definido.

O xis da confusão: a palavra casa. Jogo de mata-mata, a dissílaba exige atenção plena. Se falamos da nossa casa, o artigo não tem vez. (Saiu de casa. Voltou para casa.) Sem o pequenino, o uso do acento da crase é impedimento certo: Depois da partida, o goleiro se dirigiu a casa sem demora. O bom filho a casa torna.

Se for a casa dos outros, o jogo vira. O artigo entra em campo (a casa dos pais, saiu da casa dos amigos). Aí, escala-se a crase: Depois da partida, o goleiro se dirigiu à casa dos amigos. O bom filho à casa dos pais torna. Foi à casa do adversário.

Moral do placar: A história de bola cheia virou história de bola murcha. O que fazer? Cartaz, meio sem graça, se esforçou pra apagar o fiasco. Com texto nota 10, fez bonito com a mensagem: "Bem-vindo a casa, Palmeiras".

Bola no pé

Há um acento indicador de crase solto no campo. Onde colocá-lo? Você decide. Olho na palavra casa:

a. José voltou a casa depois de meses de ausência.

b. Quando retorna a casa, Neymar desliga o celular.

c. Os católicos dizem que bons filhos a casa voltam sempre.

d. Será que todos retornaremos a casa do Pai?

Bola na rede

Escolheu a letra d? Gol de placa. Casa, nas demais opções, se refere à casa onde a pessoa mora. Aí, não tem artigo. Sem artigo, frustra-se o casamento de dois a. Um azinho, solitário, pode fazer verão. Mas não admite crase.

Governos
Há governos e governos. Democracia é o governo do povo. Teocracia, governo de religiosos. Plutocracia, governo de ricos. Cleptocracia, governo de ladrões. Na língua de Platão e Aristóteles, demos quer dizer povo. Daí democracia. Teo, Deus. Dele se formou teocracia. Os mais curiosos são os dois últimos.

Plutocracia
Plutocracia vem de Plutão. Na mitologia romana, Plutão era o deus dos mortos e do mundo subterrâneo. (Equivalia a Hades, dos gregos.) Por que a associação à riqueza? Por duas razões. Uma: o ouro e a prata se extraem das minas. A outra: para entrar no mundo dos mortos, os cadáveres precisavam pagar pedágio. A família, então, punha uma moeda sob a língua de cada morto. Já imaginou a riqueza acumulada?

Cleptocracia
Clepsidra vem do grego klepsydra. A sofisticada palavra dá nome aos primitivos relógios de água ou areia. Duas palavras a formam. Uma: clepto, que quer dizer roubar. A outra: hidra, que significa água. A clepsidra deixa o seguinte recado aos mortais: o tempo não discrimina. Rouba a vida de pobres e ricos a cada gota d´água ou grãozinho de areia que sai do relógio.

Leitor pergunta

Ando encucada. A culpa é do bastante. Ora a trissílaba aparece no singular. Ora, no plural. A forma com s me parece estranha. Ela tem vez?
Cleide Morgano, Floripa

Bastante vale por dois. Às vezes é advérbio. Não tem plural. Na dúvida, pode ser substituído por muito (sempre no singular): Comi bastante (muito). Trabalho bastante (muito). Comprou carros bastante (muito) caros.

Outras vezes, é adjetivo. No caso, quase sempre vem junto do substantivo e concorda com ele em número. Se o nome está no singular, o bastante vai atrás. Se no plural, vai também. Na incerteza, recorra ao troca-troca com muito: Tem motivos bastantes (muitos) para reclamar. Saí com ele bastantes (muitas) vezes. Apresentou bastantes (muitas) razões.

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