Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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Mais do mesmo

01/12/2014 13:25

É sempre errado recorrer a pleonasmo ou há alguma situação em que essa figura de linguagem é bem-vinda? (Fernando César, Porto Alegre)

A palavra pleonasmo vem do grego. Na língua de Platão e Aristóteles, quer dizer superabundância. Em bom português: repetição de uma ideia com palavras diferentes.

Há pleonasmos e pleonasmos. Alguns não dão nenhuma expressividade à frase. Aí, deixam de ser figuras de linguagem e passam a ser vício. É o caso de comer com a boca, subir pra cima, descer pra baixo, entrar pra dentro, sair pra fora, jantar à noite, elo de ligação, ver com os olhos.

Outros acrescentam graça e força à frase. São bem-vindos: Ele sabe pescar peixe, mas não sabe pescar homens. Ver com meus olhos não é o mesmo que ver com os dedos. Esse ouro e prata, posto que naturalmente desce pra baixo, havia de subir para cima.

Sem falar bonito

Já ouvi, até em telejornais, a expressão "adquirir uma dívida". Se a moda pega, pode até aparecer "adquirir" uma doença. Que tal? (Rômulo Alvarenga)

Ops! É questão de propriedade vocabular. Dependendo do contexto, a gente contrai dívidas. Ou faz dívidas. Ou se endivida. Às vezes, negocia dívidas. Ou troca dívidas.

Juridiquês
Sou advogada. No tribunal onde trabalho, usa-se "a folhas" para indicar a página. A duplinha está certa? No plural? (Cynara Martins, Brasília)

Cynara, trata-se de linguagem forense. Juízes, advogados, promotores & cia. são loucos pela forma rançosa. A gramática os abona. Mas… vamos combinar? Não a adote fora do âmbito das togas.

Nada de privilégios

Há concordâncias que dão nó nos miolos. Uma delas é a do particípio quite. Dizemos "nós estamos quite ou nós estamos quites"? (Carlota Nunes, São Luiz)

Quite

não goza de privilégios. Joga no time dos adjetivos como feliz, alegre, triste. Flexiona-se como qualquer um deles. Veja: estou feliz, estamos felizes, estou alegre, estamos alegres, estou triste, estamos tristes. Logo, estou quite, estamos quites. Você está quite com suas obrigações? Eu estou. Então estamos quites.

Com ponto?
Depois de interjeições, é necessário usar alguma pontuação? (Lílian Souza, Floripa)

A interjeição traduz emoção. Por isso pede ponto de exclamação: ah!, oh!, olá!, oxalá!, tomara!, ui!, alto!, psiu!, cuidado!, alerta!

Nota 10
Tenho dúvida em relação ao verbo concluir. É correto afirmar, por exemplo, que o Ministério Público concluiu "pela" ou "por" alguma coisa? (Lilian Haas, BH)

Regência, Lílian, é calo nos dois pés. Na dúvida, é melhor recorrer ao paizão. O dicionário de verbos e regimes, de Francisco Fernandes (o melhor que temos), dá nota 10 para concluir por (pelo, pela), que significa convencer-se de: Gonçalo concluiu pela necessidade de acabar a novela.

Sem rumo
O verbo ir vem sendo usado nas novelas de forma estranha, sem obedecer à norma gramatical. Exemplos: Você vai na festa? Você foi no casamento? Não consigo engolir tal coisa. (Mariana Távora, Recife)

Trata-se de regência disseminada Brasil afora. As novelas foram atrás. Bobeiam. O verbo ir admite duas preposições. Cada uma dá recado diferente. Ir a significa que vamos voltar rapidinho (vou ao clube, vou ao cinema, vou ao teatro, vou a São Paulo). Ir para avisa que vamos de mala e cuia — pra ficar ou pra demorar um tempão: Vai para Nova York fazer pós-graduação. Vai para Porto Alegre morar com os pais. Vá pro inferno. Não vou. Vou-me embora pra Pasárgada.

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