Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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Cada um tem seu preço

08/12/2014 17:01

Gente, foi um pega pra capar. A sessão se estendeu noite adentro. Durou 18 horas. Na pauta, a maquiagem das contas do Executivo. Dilma gastou mais do que podia. Desrespeitou a Lei de Responsabilidade Fiscal. Pra fugir da Justiça, o jeito foi dar um jeito — mudar a lei. Simples assim.

Na quarta, o Congresso discutia o projeto. Não faltaram discursos a favor e contra. Parlamentares cochilavam. Bocejavam. Ajeitavam-se na poltrona. A certa altura, quem dormia acordou. Quem sonhava com o recesso caiu na real. Quem fingia atenção abriu os olhos. Voz forte sacudiu o plenário:

— Os senhores que votarem a favor da mudança têm preço. Valem R$ 748 mil.

Ops! Um ex-dorminhoco ouviu. Duvidou dos ouvidos. O colega confirmou a cifra. Indignado, pegou o microfone:

— Como R$ 748 mil? Eu val…

Pintou a dúvida. Valo? Valho? Sem resposta, mudou o discurso. Cabeça erguida, olhar fixo, voz firme, disse:

— Eu não tenho preço.

Safou-se. Mas a dúvida permaneceu. Suas Excelências dividiram-se em dois grupos. Um defendia valo. O outro, valho. E daí? Ex-dorminhoco sugeriu consultar o Google. Não emplacou. Outro, esperto, pegou o celular, acessou o Aurélio e… eureca! A resposta estava lá.

Vale a consulta

Valer joga no time dos irregulares. O bicho pega no presente do indicativo. Mais precisamente: na primeira pessoa do singular: eu valho, ele vale, nós valemos, eles valem.

Verbos têm pai e mãe. Da primeira pessoa do singular do presente do indicativo nasce o presente do subjuntivo — todinho, sem tirar nem pôr: que eu valha, ele valha, nós valhamos, eles valham.

No mais, o dissílabo se contenta com a vala comum. Flexiona-se com o radical do infinitivo — com um l solitário: ele vale, nós valemos, eles valem; eu valia, ele valia, nós valíamos, eles valiam; eu vali, ele valeu, nós valemos, eles valeram; eu valerei, ele valerá, nós valeremos, eles valerão. E por aí vai.

Tropeços sonolentos

"Na hora de gastar", discursou senador de muitas manhas e poucos argumentos, "todos foram unânimes." Ops! O homem tropeçou em pleonasmo deste tamanho, ó. Unânime é relativo a todos. É bom evitar desperdícios. Que tal escolher um ou outro? Assim: Na hora de gastar, fomos unânimes. Todos concordaram com os gastos.

Mostrador
Taquígrafos registravam os discursos. Estavam de olho no relógio. Quando os dois ponteiros chegaram ao número 12, a dúvida tomou conta de gregos, romanos, goianos e baianos. Eram 24h ou era 0h? Parece discussão sobre o sexo dos anjos. Mas não é. O recado muda: 24h é o fim do dia; 0h, o começo.

Olha a hora
Atenção, marinheiros de muitas viagens. Nesta alegre Pindorama, fala-se português. Por isso, a abreviatura não suporta dois pontos (2:15), coisa de gringo. Aqui a redução segue regras próprias. É sem-sem-sem — sem plural, sem espaço e sem ponto: 5h, 5h10, 5h10min40.

Leitor pergunta

Existe uma música nova do cantor Gustavo Lima que pergunta no título e no refrão: Que mal te fiz eu? Pelo que sei de português, a frase está errada. Ou estou equivocada?
Edilene Gonçalves, lugar incerto

A frase, Edilene, está na ordem inversa. Posta na direta, fica assim: Eu te fiz que mal? Uma e outra estão gramaticalmente corretas. Eu prefiro a forma escolhida pelo Gustava Lima. Soa melhor.

***

Uma placa do Setor Gráfico me chamou a atenção. Nela aparece esta frase: "Atendimento e qualidade são a nossa marca". O correto não seria "são as nossas marcas"?
Andre Heberson, Brasília

Trata-se do falso plural. Guarde isto: deixa-se no singular o substantivo abstrato que, depois de verbo de ligação (ser, estar, tornar-se, virar), caracterize genericamente o sujeito plural: Os pobres são o alvo dos políticos. Filmes nacionais são destaque no festival. Os sem-terra tornaram-se exemplo para os sem-teto. O sujeito e o predicado são parte da oração. Atendimento e qualidade são a nossa marca.

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