Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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Ninguém merece

17/12/2014 09:37

Brasileiros se perguntam: chegamos ao fundo do poço? Depois dos rios de denúncias de corrupção, dos desmandos do governo e dos maus exemplos de parlamentares, eis que Jair Bolsonaro consegue indignar ainda mais a população. Do plenário da Câmara, solta esta frase raivosa: "Não estupro a senhora porque a senhora não merece".

Ops! A aberração, transmitida ao vivo e em cores, gerou críticas em Europa, França e Bahia. As redes sociais a multiplicaram. Resultado: a Procuradoria da Repúblia denunciou o deputado por incitação ao crime. Se a ação for aceita, o homem vai prestar contas à Justiça. Vira réu.

Sem troca-troca


Enquanto o processo rola, vale prestar atenção aos bandidos e à língua. Falantes costumam trocar uma letrinha do lugar. Em vez de estupro, dizem "estrupo". Nada feito. Pra acertar sempre, há uma saída — memorizar a palavra. Como? Repeti-la, repeti-la, repeti-la. Dominada, ela mostra o horror da dupla violência. Uma delas: a pronúncia. A outra: o significado da ameaça.

Palavrão

A palavra vem do latim stuprum. De lá, embarcou pra outras terras. Entre elas, o português. A língua de Camões manteve o significado da língua dos Césares. É este: obrigar alguém a fazer sexo sem querer — com violência ou grave ameaça. Valha-nos, Deus!

Sócio

Réu é a pessoas que está presa ou na iminência de ser presa. Ninguém vai pro xilindró de graça. A criatura vê o Sol nascer quadrado porque cometeu um crime. Às vezes, comparsas participam da violência. São corréus. A palavra se escreve assim mesmo — coladinha da silva.

Por falar em corréu…


Antes da reforma ortográfica, o prefixo co- aceitava o hífen. Agora não. O monossílabo, que indica companhia, contiguidade ou sociedade, contraiu incurável alergia ao tracinho. Pra evitar espirros, tosses e erupções cutâneas, só há uma saída — escrever tudo coladinho. É o caso de coautor, coparticipante, corréu.

A dose dupla não vem de hoje. Dobramos r e s pra manter a pronúncia original da palavra: minissaia (mini + saia), microrregião (micro + região), videorrevista e, claro, corréu.

Meu bem, meu mal

Deputados presentes à sessão falavam da bobeira de Jair Bolsonaro. Um deles fez esta comparação:

— A agressão faz mais mal do que bem.

Pintou, então a dúvida. Mais mal e mais bem existem? Ou só pior e melhor têm vez?

Resposta: Mais bem e mais mal estão vivinhos da silva. E, porque frequentam o dia a dia dos falantes, exigem respeito no trato. As duplinhas são pra lá de bem-vindas em duas construções:

1. antes de particípio: João foi mais bem classificado que Maria. Não há redação mais bem desenvolvida que a de João. A questão mais bem formulada foi esta. As francesas são as mulheres mais bem vestidas da Europa. A pergunta mais mal formulada foi a do senador. Nunca vi texto tão mal escrito.

2. na comparação de qualidades: O remédio faz mais bem do que mal. A droga faz mais mal do que bem.

No mais, melhor e pior pedem passagem: Fala melhor (pior) do que escreve. Saiu-se melhor (pior) do que esperava. Nara pinta melhor (pior) do que Tânia. Ganha melhor (pior) no emprego diurno que no noturno.

Leitor pergunta

Tenho dificuldade com a concordância em frases em que aparece "o mais ... possível". Pode me dar uma ajudinha?

Mirtes Sereno, Brasíla

Compare as frases, Mirtes:

Mulheres o elegantes possível.

Mulheres as mais elegantes possíveis.

Reparou na malandragem? O possível em o…mais possível e os mais possíveis concorda com o artigo. Artigo no singular? O trissílabo fica no singular. Artigo no plural? O trissílabo idem.

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