Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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Arrepios dos pés à cabeça

12/01/2015 17:09

Paris amanheceu tranquila. A rotina imperava. Alunos foram à escola. Comerciantes, às lojas. Barnabés, à repartição. Trens, metrôs e ônibus rodavam pontuais. De repente, soou o alerta. A polícia se mobilizou. As redes sociais espalharam a notícia. Atentado terrorista matou 12 pessoas. Entre elas, os mestres dos cartunistas de Europa, França e Bahia.

O alvo dos terroristas: os profissionais do semanário satírico Charlie Hebdo. A publicação goza de Deus e do mundo. Não poupa poderosos da política, da economia, da religião. Nem o Senhor escapa. Resultado da irreverência: ameaças sem fim. Mas a revista mantém firme e forte a linha editorial. "Prefiro morrer de pé a ficar de joelhos", disse certa vez o editor-chefe. Stéphane Charbonnie deu lição de coragem e de domínio da língua.

Traços e letras
Assim como dominava os mistérios dos traços, Sthéfane nadava de braçadas nas manhas da língua. A regência do verbo preferir serve de exemplo. Noventa entre 100 brasileiros tropeçam na preposição. Dizem "prefiro isto do que aquilo". Valha-nos, Deus. Pisam feio na construção da frase. A gente prefere uma coisa a outra (não do que outra). Prefere alguém a outro alguém (não do que outro).

Nota 10 para "Prefiro morrer de pé a ficar de joelhos". Os franceses preferiram ir às ruas a ficar em casa. Gregos, romanos e baianos preferem a liberdade de expressão à censura ou autocensura. Prefiro ler a escrever. Os brasileiros preferem futebol a natação.

Canseiiiiiiiira
A frase de Stéphane Charbonnier — repetida nos cinco continentes em diferentes línguas e variados dialetos — levantou uma questão. A expressão nota mil é em pé ou de pé? Generosa, a língua aceita as duas formas. De pé ou em pé a consequência é a mesma — canseira sem fim.

Tradução

"Ala akbar" é frase árabe pra lá de repetida. Muitos a traduzem como Deus é grande. São modestos. Em bom português diriam Deus é maior.

Rir dói
Três cartunistas perderam a vida no ataque à revista Charlie Hebdo. Cabu, Tignous e George Wolinski faziam cartuns. A palavra vem do inglês cartoon. Na língua de Shakespeare e na de Camões, o significado é o mesmo. Trata-se de desenho humorístico ou caricatural. É, como diz o Houaiss, "uma espécie de anedota gráfica que satiriza comportamentos humanos". Em português claro: com traço e talento, o chargista goza Deus e o mundo. Que medão! Os poderosos tremem da cabeça aos pés.

A lição
Crase? Pra que crase? Cineas Santos ensina:
"O amor bate à porta
e tudo é festa.
O amor bate a porta.
e nada resta."

Leitor pergunta

"Terroristas fazem mais mal à causa do que bem." A frase de analista do ataque à revista francesa me acendeu uma dúvida. Não sobre o conteúdo da afirmação, mas sobre o emprego de "mais mal". Está certo?
Carlos Martins, Recife

Está. Mais bem e mais mal têm vez em dois empregos:

1. Comparação de características: Alimentos gordurosos fazem mais mal à saúde do que bem. Em certos casos, correr faz mais bem do que andar devagar. Terroristas fazem mais mal à causa do que bem

2. Antes de particípio: Joana foi mais mal classificada no concurso do que Carlos. Não há discurso mais mal redigido do que o apresentado ontem. Este é o comentário mais bem aceito por todos. As francesas são as mulheres mais bem vestidas da Europa.

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