Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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Teatro da Esplanada

02/02/2015 11:00

A semana apresentou show atrás de show. Na reunião ministerial, a presidente lia monótono discurso. As excelências presentes se esforçavam pra não cochilar. De repente, Dilma mudou de tom. Olhou duro e ordenou ao servidor que passava o discurso pra ela ler: "Vá mais rápido". Ele não foi. Impaciente, Sua Excelência decidiu: "Deixe. Eu falo sem texto".

Bobeou. Na primeira frase, soltou vício odiado por 10 entre 10 brasileiros: "As empresas, elas devem ser poupadas". Valha-nos, Deus! Qual a função do elas? Nenhuma. O penetra repete o sujeito, que está ali, coladinho no pronome intruso. Xô, coisa ruim! Melhor permitir ao mandachuva da oração reinar sozinho. Simples assim: As empresas devem ser poupadas.

Espetáculo às avessas

O carnaval vem aí. Foliões se preparam pra fazer o que sempre fazem — cair na orgia. No reinado de Momo, a alegria e o amor correm livres. O Ministério da Saúde, com base em pesquisa, descobriu que 45% dos brasileiros fazem sexo sem proteção. Lançou, então, campanha de prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. Entre elas, sobressai a aids.

Arthur Chioro deu entrevista para jornais, rádios e tevês. Diante de câmeras, microfones e repórteres, anunciou a estraégia: "Vamos distribuir 120 milhões de camisinhas… gratuitas". Ops! Em vez de pronunciar gra-tui-tas, pôs baita acento no i. A silabada doeu. Pior: lançou dúvida na cabeça dos contribuintes que, no fim das contas, vão pagar a iniciativa.

Sua Excelência teria condições de mudar o comportamento da moçada? Sabe-se lá. Que tal garantir a adesão dos carnavalescos? Vale lembrar: o ditongo ui, que aparece em gratuito, soa como o de circuito e fortuito. Separar o i? Valha-nos, Deus! Não se separa o que o Senhor uniu.

Show dos shows
Quem recebeu o troféu Inimigos da Língua? Cláudio Humberto escolheu a ministra dos Direitos Humanos. Sem corar, Ideli Salvati soltou a pérola "tem uma coisa meia lógica". Ops! Sua Excelência deu dois chutes no idioma de Camões, Fernando Pessoa, Machado de Assis e todos nós.

Um deles: esnobou o verbo haver. No sentido de existir, o dissílabo pede passagem: Há duas pessoas na sala. (Existem duas pessoas na sala.) Tinha cinco livros aqui. (Havia cinco livros aqui.) Há uma coisa lógica. (Existe uma coisa lógica.)

O outro: confundiu duas bolas. Em certos empregos, meio é invariável. Não quer saber nem de feminino nem de plural. Advérbio, significa um tanto: Maria anda meio (um tanto) irritada. Na prova, os alunos pareciam meio (um tanto) inseguros. Há uma coisa meio (um tanto) lógica.

Noutros empregos, meio quer dizer metade. Aí, terminou a moleza. Flexiona-se como qualquer mortal: Os médicos dizem meias verdades. Comprei duas dúzias e meia (dúzia) de ovos. Eles são meios-irmãos. É meio-dia e meia (hora). Comprei duas meias-entradas.

Fim
Acabou-se o que era doce. Alguém disse que a gramática é um sistema de ciladas. As armadilhas ficam à espreita. Ao menor descuido, laaaaaaá vamos nós. Caímos de quatro. A Esplanada que o diga.

Leitor pergunta
Quero lhe fazer uma consulta. Leio aqui no livro de Lauro Trevisan: "Em carta dirigida a Henrique II, Nostradamus explica porque obscureceu os fatos ". Acredito que esse porque deve ser por que. Estou certo?

Dárcio Calais, BH


Certíssimo. Sempre que for substituível por "a razão pela qual", o porquê se escreve separadinho — um pedaço lá e outro cá. Assim: Disse por que (a razão pela qual) saiu mais cedo. Não entendo por que (a razão pela qual) irmãos brigam tanto. Nostradamus explica por que (a razão pela qual) obscureceu os fatos.

***

Mais ou mas? Confundo sempre. Existe alguma dica inesquecível?

Cláudia Mabel, Ceilância

Guarde isto. Mais tem quatro letras. Mas tem três. Pois a grandona é o contrário de menos. Na dúvida, substitua a palavra por menos. Se a declaração ganhar sentido contrário, não tenha dúvida. Dê passagem ao mais: Comi mais (menos) do que Maria. Paulo é mais (menos) educado que Luís. Acordei mais (menos) disposto.

Estudei muito, mas não passei. Ops! Aí o menos não tem vez. O mas introduz ideia contrária. É conjunção adversativa. Joga no time de porém, todavia, contudo, entretanto: Estudei muito, porém não passei.

Valeu?

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