Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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Para acertar sempre

23/02/2015 13:50

Dizem que o comunismo não se impôs no Brasil por cautela. Temia ser desmoralizado. Os portugueses não tiveram a mesma atenção. Vieram para Pindorama e, com eles, trouxeram a língua — com suas regras e exceções. Aqui, as normas tomaram o próprio rumo. Vale o exemplo dos pronomes átonos.

Os bons gramáticos concordam que a colocação dos pequeninos me, te, se, lhe, o, a, nos, vos, lhes, os, as enveredou por caminhos nunca antes percorridos. Em vez das dúzias de regras feitas sob medida para a pronúncia lusa, o brasileiro fica com duas. Com elas, acerta sempre.

As super-regras

1. Não inicie o período com pronome átono.

2. Ponha o pronome sempre na frente do verbo.

Em bom português 1


A primeira ordem — não iniciar o período com pronome átono — abrange duas situações. Uma é fácil como andar pra frente. Trata-se de iniciar mesmo. A primeira palavra da frase não pode ser o pronome átono. Compare:

Comunicou-se comigo ontem. (Não: Se comunicou comigo ontem.)

Dei-lhe o recado cedo. (Não: Lhe dei o recado cedo.)

Revelaram-me o segredo. (Não: Me revelaram o segredo.)

A lógica

O pronome átono se chama átono porque é fraquinho. Sem força pra manter-se de pé sozinho, precisa de apoio pra sustentar a oração. Outras palavras lhe servem de encosto — substantivo, pronome, numeral, advérbio. Com elas, podemos fugir da próclise. Basta usá-las como sujeito: Paulo se comunicou comigo ontem. Eu lhe dei o recado cedo. Ambos me revelaram o segredo.

Em bom português 2

O desamparo do fracote se dá sempre que ele não tem apoio. Além do início do período, uma construção o deixa sem chão — depois de vírgula ou ponto e vírgula. Compare:

Aqui se fala português. (Aqui, fala-se português.)

O servidor brigou com o chefe? Não; deu-lhe sugestões.

Olho vivo!

Às vezes, a vírgula separa termo intercalado. Viva! Cessa tudo o que a musa antiga canta. O apoio permanece. Está longe, mas sustenta o pequenino como se estivesse juntinho. Veja:

Maria me telefonou.

Maria, antes de sair de casa, me telefonou.

O pai lhe disse que viajaria no fim do ano.

O pai, sem mais nem menos, lhe disse que viajaria no fim do ano.

Talvez se disponha a escrever o artigo.

Talvez, motivada, se disponha a escrever o artigo.

Ele nos comunicou o fato por e-mail logo que recebeu a informação.

Ele, logo que recebeu a informação, nos comunicou o fato por e-mail.

Atenção, marinheiros

Falamos da norma culta — a exigida em concursos, na escola e no exercício profissional. Na língua descontraída, que veste camiseta e bermuda, vale a norma cantada por Oswald de Andrade no poema Pronominais:

Dê-me um cigarro

Diz a gramática

Do professor e do aluno

E o mulato sabido

Mas o bom negro e o bom branco

da nação brasileira

Dizem todos os dias

Deixa disso, camarada,

Me dá um cigarro.

Leitor pergunta

Sou do tempo em que as petições eram protocoladas. De uns tempos para cá, porém, passou-se a empregar protocolizadas. Está correto?
Humberto Pires, Brasília

O Aurélio e o Houaiss registram as duas formas. Vamos combinar? Protocolizar cheira a modismo como perdoalizar. Xô!


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