Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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Liana à beira de ataque de nervos

25/02/2015 13:38

Ela assina a coluna Favas Contadas. Fala do que mais gostamos — comer e beber. Não se contenta com pratos gostosos e bebidas companheiras. Exige ambiente acolhedor, que atrai amigos para bate-papos sérios ou irresponsáveis. O requinte vai além. Liana Sabo embala a informação na língua CCC — clara, concisa e correta.

A mesma qualidade ela exige das publicações que lê. É aí que mora o desgosto. Na segunda, interessou-se por notícia publicada no Valor Econômico. O texto falava da homenagem que o fundador do Banco Icatu recebeu por incentivar atletas. A certa altura, o repórter escreveu que "o empresário foi recebido pelo ex-tenista Gustavo Kuerten". Mais adiante: "`Eu só desejo que eles evoluam na carreira´, disse o ex-banqueiro".

Liana reagiu. "Quem foi rei não perde a majestade. Guga deixou de jogar nas quadras, mas não deixa de ser tenista. Braguinha se afastou do gabinete, mas continua banqueiro. Joaquim Barbosa se aposentou do STF. É ministro aposentado". No auge da indignação, ameaçou: "Se no meu obituário escreverem `a ex-jornalista Liana Sabo´, volto do outro mundo e puxo os pés do herege".

Já era
"O que é certo na vida?", perguntaram a Confúcio. "A única certeza é que tudo passa", respondeu o sábio. Porque tudo passa, a língua sabida criou o prefixo ex. As duas letrinhas dizem isto: o que era, mas deixou de ser. Ex-diretor é quem tinha o crachá de autoridade e deixou de ter. Ex-deputado é quem tinha mandato e não tem mais. Ex-marido é quem dividia o leito nupcial e não divide mais.

Criatividade à solta
O ex entrou na moda. Ganhou as colunas sociais e a boca do povo. Não só. Invadiu classes gramaticais e criou código próprio. A criatividade corre solta. Corta parte da informação ao dizer, por exemplo, "Ronaldinho, ex-Atlético", em vez de "ex-jogador do Atlético". Vira substantivo em construção como "meu ex, minha ex". Junta as duas funções ao falar da pouco criativa mania do casa-descasa-recasa sem fim: Meu ex-ex telefonou.

Requintes
O ex tem requintes. Um deles: o truque temporal. Hoje, Cristovam Buarque é ex-ministro da Educação. Mas ministro da Educação do governo Lula da Silva. Ou ministro da Educação entre 2003 e 2004. José Sarney é ex-presidente do Brasil, mas presidente do Brasil em 1986. O outro: a profissão. Médicos, professores, advogados & cia. continuam médicos, professores e advogados mesmo quando afastados da função.

Os do lado de lá
Olho vivo, gente fina! Mortos têm direitos eternos. Glauber Rocha não é ex-diretor de cinema. Garrincha não é ex-jogador de futebol. Chopin não é ex-compositor. Ao citá-los, diga: o diretor Glauber Rocha, o jogador Garrincha, o compositor Chopin.

Leitor pergunta

Gosto de caqui. A frutinha desce macia e redonda. Gosto, também, de calça cáqui. O estilo alfaiataria tem classe, charme e elegância. Mas nem tudo são flores. Ao escrever as duas preferências, paro, penso e me confundo. Por que uma tem acento e a outra não?
Luíza Inez Gales, Porto Alegre

O grampinho tem a ver com o acento tônico da palavra. Em caqui, a fortona é a última sílaba. Em cáqui, a penúltima:

1. As oxítonas terminadas em i agradecem, mas dispensam o acento gráfico: tupi, guarani, aqui, ali, abacaxis, jabutis, parti-lo, dividi-lo.

2. As paroxítonas se opõem às oxítonas. O que acontece com umas não acontece com as outras. Ora, se as oxítonas esnobam o grampinho, as paroxítonas orgulham-se de exibi-lo. É o caso de táxi, máxi e cáqui.

É isso.

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