Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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Vandalismo gramatical

11/03/2015 16:29

Pichações fazem a festa em Europa, França e Bahia. O Equador está no mundo. Lá como cá, desocupados deixam marcas em prédios, muros, monumentos. Fazem borrões ou escrevem frases sem cerimônia. É aí que mora o perigo. É aí, também, que entra em cena a Ação Ortográfica Quito. Grupo de pessoas invadem as madrugadas pra corrigir os erros de escrita deixados pelos vândalos. Acrescentam acentos, inserem vírgulas, põem pontos, corrigem letras. Não são revolucionários nem políticos. São defensores radicais da gramática.

Nesta Pindorama verde-amarela, a moçada teria muiiiiiiiiiiiiiiiiito trabalho. Precisaria de duas equipes. Uma atuaria nas ruas. A outra, em casa. Jornais, rádios, tevês exibem tropeços pra dar, vender e emprestar. É o caso da manchete "morre ex-anão de circo". Ou da matéria que reclamava da falta de "acentos" destinados a idosos e grávidas nos ônibus. Ou do entrevistado que "interviu" na greve dos professores que se arrasta no Paraná.

Em ação
Vamos combinar? Quem escreve "ex-anão" se sente autorizado a embarcar em aventuras como "ex-pessoa" ou "ex-médico". Quem pede "acento" para deficientes pode sentar-se em grampos ou chapeuzinhos e pôr sofás, bancos e cadeiras em cima de pobres letras que talvez desabem com o peso. Melhor oferecer assento aos passageiros e deixar o acento para as palavras. Quem diz "interviu" matou aula. Perdeu a explicação sobre pais e filhos. Intervir nasceu de vir. Um e outro se flexionam do mesmo jeitinho: vim (intervim), veio (interveio), viemos (interviemos), vieram (intervieram).

Lembrete
De sentar se formou assento. O primitivo se escreve com s. O derivado, vaquinha de presépio, vai atrás. Mantém o s original.

Quentinha

Quer uma quentinha, recém-saída do forno? Ontem, no Bom dia, Brasil, repórter falava da Operação Lava-Jato. Relatava os privilégios dos tubarões presos em dependências da Polícia Federal de Curitiba. Em determinado momento, soltou esta: "Yousseff disse que tinha de pagar entre R$ 3 a R$ 4 milhões por mês". Ops! A moça pisou o paralelismo. A preposição entre pede o parzinho e: Plantou a árvore entre a casa e o muro. Ficou na dúvida entre o vestido vermelho e o branco. Algo existe entre o PT e o PMDB. Nada existe entre mim e ele.

Pão dormido
Leitores são generosos. Colaboram com sugestões, histórias, elogios e críticas. Paulo José Cunha é um deles. Outro dia, leu duas narrativas sobre o folclore político. Não pensou duas vezes. Encaminhou-as pra compartilhá-las com os leitores. Vamos rir?

Pleonasmo
"O que é isso, Benedito?", perguntou Gustavo Capanema, ministro da Educação de Getúlio, ao governador de Minas, Benedito Valadares, que chegava para uma audiência no Palácio do Catete usando óculos escuros. "Conjuntivite nos olhos", respondeu. Despediram-se. Ao vê-lo, Getúlio lhe fez a mesma pergunta. E Valadares: "Presidente, o doutor lá em Minas disse que era conjuntivite nos olhos. Mas o Capanema, que quer ser mais sabido do que os médicos, acaba de me dizer que é um pleonasmo".

Impeachment
Faustino Albuquerque, governador do Ceará, era um arbitrário: fechou rádios, prendeu estudantes, fez e aconteceu. Cogitou-se de seu impeachment. Um chefe político do interior, desses bem broncos, pediu audiência a fim de levar-lhe apoio. Pra ser agradável, disse, na presença da imprensa, que estava a seu lado contra "esses deputados que querem pichar o senhor". Faustino, tremendo de raiva, enfiou o dedo na cara do infeliz aos gritos: "Pichar eu sei quem vão pichar — é a sua mãe, seu filho da..."

Leitor pergunta

O prefixo do momento é super. Ele aparece a torto e a direito. É superfaturamento pra lá, superoperação pra cá, superesquema pracolá. Apesar de vê-lo escrito todos os dias, tenho dúvidas de como usar o hífen. Pode me ajudar?
Marcelo Lima, Floripa

O super só aceita hífen quando seguido de h e r. No mais, é tudo colado: super-homem, super-região, supersistema, superatual, superexposição.

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