Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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Ingleses e brasileiros

16/03/2015 10:11

"O inglês não veio ao mundo para dizer-se, mas, pelo contrário, para calar-se", disse Ortega Y Gasset. E o brasileiro? O nascido nesta Pindorama verde-amarela joga em outro time. Adora ouvir a própria voz. Daí por que fala em lugares impróprios como cinemas e palestras. Daí também por que grita em restaurantes. Para ouvir-se na babel de vozes, eleeeeeeeeeeeeeeeeva o tom de voz.

Na abertura dos trabalhos, a CPI da Petrobras deu show de inadequação. O presidente e deputados do Psol se dirigiam uns aos outros muitos decibéis acima do tolerável por ouvidos delicados ou tolerantes. A cena levantou questão pra lá de simples: qual o plural de bate-boca? A resposta tem a mesma simplicidade. É o mesmo de guarda-roupa e porta-retrato. O verbo não muda. Só o substantivo se flexiona: bate-bocas, guarda-roupas, porta-retratos.

Tudo tem hora
Por nem sempre abrirmos a boca na ocasião adequada, a língua criou palavras para acertos e erros. Uma delas: tempestivo. Significa oportuno, no tempo certo. A outra: intempestivo. Trata-se do contrário — fora do tempo. O Judiciário abusa dos vocábulos: O advogado apresentou o recurso tempestivamente (dentro do prazo). Consideraram a ação judicial intempestiva (fora do prazo).

Sem trocar as bolas

Olho vivíssimo. Muitos pensam que Germano é gênero humano. Aí, não dá outra. Relacionam tempestivo e intempestivo com temperamento. Pessoas explosivas recebem a classificação de intempestivas. Valha-nos, Deus!

Basta um

Só acredita quem ouviu. O depoimento de Pedro Barusco chocou. Ao falar na CPI da Petrobras, o ex-gerente da empresa citava milhões de dólares como se citasse centavos. Excitados, não faltaram deputados que pisaram a língua. Referiam-se a "quantia de dinheiro". Baita pleonasmo. No caso, não vale o provérbio popular "um é pouco, dois é bom, três é demais". Com a língua, um é suficiente. Por isso, quantia de dinheiro é redundância. Basta quantia. Mas quantia em dinheiro, em espécie, em dólares, em euros pode.

Juiz em trânsito

O governador Flávio Dino, do Maranhão, usou o Twitter para ironizar a conduta do juiz federal Flávio Roberto de Souza, flagrado dirigindo um Porsche do empresário Eike Batista: "Acabei de receber importante ensinamento jurídico. Juiz passeando com carro apreendido. Isso é que é transitar em julgado".

Falar difícil
"Faz parte da tradição brasileira falar difícil para dizer coisas simples — porque, se ditas com a devida simplicidade, elas podem ser entendidas. E o importante é que não sejam entendidas." (Ruy Castro)

Já era

"Notícias nunca derrubam o mundo. O que o derruba são os fatos, que nós não podemos modificar, pois já aconteceram quando as notícias nos chegam." (Dürrenmatt)

Por falar em fatos…
"Baseado em fatos reais", avisam filmes, novelas e livros. Bobeiam. Todo fato é real. Daí por que o povo sabido costuma dizer "não é brincadeira, é fato". Fugir do pleonasmo é fácil como andar pra frente. Basta trocar o substantivo. Que tal baseado em história real?

Leitor pergunta
No site da Imprensa Nacional notícia anunciava a liberação de verbas para cidades acrianas. Achei estranho o gentílico utilizado. Parecia mais natural ser acreano. Após rápida busca no Vocabulário ortográfico da língua portuguesa, vi que acriano estava correto. Porém, para minha surpresa, no site do governo do estado achei "Terras Acreanas". Será que o próprio governo não sabe a denominação de seu povo? Estamos bem pra caramba, hein?

Plinio Ribeiro, Brasília


Com a palavra, o governo do Acre e os acrianos.

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