Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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Tolerância zero

18/05/2015 13:26

Adílson Pinheiro joga no time do tolerância zero. Não leva dúvida pra casa nem a pedido dos deuses do Olimpo. Quando pinta uma, faz o que deve ser feito. Bate à porta de quem pode saná-la. Outro dia, leu este período: "É nas páginas de um livro que podemos viajar sem sair de casa e conhecer a alma humana".

Ops! Não seria "São nas páginas de um livro que podemos viajar sem sair de casa e conhecer a alma humana"? Pensou. Repetiu uma forma e outra. Em vão. Não chegou a nenhuma certeza. Recorreu, então, à coluna. A questão, pra lá de bem-vinda, toca em termo sem função. Ele se mete na vida do enunciado porque é intrometido.

O intrometido

Monteiro Lobato costumava dizer que a língua tem variado estoque de palavras à disposição. Combina-as segundo a necessidade. Na formal, usa terno e gravata. Na informal, camiseta, bermuda e chinelo. A escolha de um ou outro traje depende da ocasião. É igualzinho a nós. Se vamos à piscina, vestimos biquíni ou sunga. Se ao baile de gala, longo e smoking. Se ao cineminha de sábado, jeans, tênis, shortinho.

No exemplo do Adílson, a língua está à vontade. Deu a vez a penetra pra lá de ousado. Trata-se da partícula é que. Expletiva, ela pode ser jogada for a. Exemplos não faltam: Onde (é que) você mora? Por que (é que) empresários envolvidos na Operação Lava-Jato voltaram pra casa? Quem (é que) sabe a resposta? Nós (é que) somos patriotas.

O xis da questão
Olho vivo, Adílson. Você propõe transformar o é que em são que. Nem pensar. A intrusa é inflexível. Invariável, não tem singular nem plural. É sempre igual. Que tal mandá-la plantar grama no asfalto? Xô, criatura indesejada! Assim: (É) nas páginas de um livro (que) podemos viajar sem sair de casa e conhecer a alma humana.

Moral da opereta

E daí? Sem a expletiva, o enunciado mantém-se correto. Mas perde ênfase. Ficar com ela? Livrar-se dela? É preferência de cada um. O resultado não muda. É acertar. Ou acertar.

Lição machadiana

"As frases feitas são a companhia cooperativa do espírito. Dão o trabalho único de as meter na cabeça, guardá-las e aplicá-las oportunamente, sem dispensa de convicção, é claro, nem daquele fino sentimento de originalidade que faz um molambo seda." (Machado de Assis)

Fofoca

Você conhece algum fofoqueiro? Preste atenção à fala dele. Pra não ir pro xilindró, o amante da vida alheia se defende. Apela pra dois recursos da língua. Um: o futuro do pretérito. O outro: o dizem que. Com essas armas, ele solta o veneno. E safa-se de processo. A grande vítima é a verdade.

Aprecie os diálogos:
Maria — Sabe da última? Dizem que a Carla anda de caso com o João.

Paulo — Quem disse?

Maria — Ah, dizem.

***

Maria — Não se fala em outra coisa na cidade.

Paulo — Em quê?

Maria — A Carla andaria de caso com o João.

Paulo — É fato?

Maria — Não sei. É o que dizem.

Língua zero
"Alagoas é o estado pior classificado", informou o Bom-Dia, Brasil, sobre o Mapa da Violência. Telespectadores ouviram. Uiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii! Sentiram forte pancada nos ouvidos. A razão: antes de particípio, melhor e pior não têm vez. Mais bem e mais mal pedem passagem: Alagoas é o estado mais mal classificado. João apresentou a redação mais bem redigida. Nós somos os mais bem vestidos do Brasil.

Leitor pergunta
Tenho lido nos jornais a palavra Petrobras sem acento e Nuclebrás com acento. Pergunto-lhe: é correto isso?

Sebastião Machado Aragão, Brasília

As oxítonas terminadas em a (seguidas ou não de s) são acentuadas. É o caso de sofá, sofás, está, estás, sairá, sairás, Eletrobrás. Petrobras ostentava o grampinho como manda a regra. Quando se internacionalizou, quis ficar parecida com o inglês. A língua global não tem acentos. Por isso Petrobrás virou Petrobras.

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