Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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É proibido proibir

15/06/2015 15:28

Ufa! A novela das biografias chegou ao fim. Já foi tarde. O Supremo Tribunal Federal foi unânime: 9 X 0. Deixou recado claro pra Roberto Carlos & cia. louca pela volta da censura. É proibido proibir. Escritor que quiser contar a vida de celebridade não precisa pedir autorização do personagem ou familiares. Se disser mentiras e calúnias, prestará contas à Justiça.

O julgamento trouxe às manchetes palavrinha pra lá de odiada. É o monossílabo não. Ninguém o ama, ninguém o quer. Mas ele aparece em montões de vocábulos. É o caso de não intervenção, não governamental, não ingerência. E, claro, não autorização. A pergunta: a duplinha se grafa com hífen? Ou fica um lá e outro cá, livres e soltos?

Antes da reforma ortográfica, imperava a confusão. Ora o tracinho aparecia, ora não. Agora reina a padronização. Xô, elo! Viva a liberdade! Assim: não autorização, não agressão, não alinhamento, não conformismo, não fumante, não alinhado, não intervencionista, não verbal, não viciado, não combatente, não ferroso. Etc. e tal.

Cristo, Judas e Levy

A Bíblia entrou na ordem do dia. No centro, Joaquim Levy. O ministro foi comparado a Judas e a Jesus Cristo. Num e noutro caso, não é pouco. Daí a repercussão em jornais, rádios, tevês e internet. Luiz Fernando Perez Pereira leu os comentários na imprensa. Surpreendeu-se com os maus-tratos dispensados à língua.

"Os redatores não têm a menor ideia se a grafia é com minúscula ou maiúscula", escreveu ele. No jornal, a chamada de capa diz que Temer compara Levy a Cristo. A manchete da pág. 3 é "Levy, de Judas a Cristo". Num dos destaques, aparece: "Não se pode fazer isso, criar um Judas". No texto: "Levy não pode ser visto como um Judas". Ufa!

De próprio a comum
A língua joga no time dos mutantes. Instrumento de comunicação das pessoas, muda conforme mudam os tempos e os falantes. Maiúsculas e minúsculas servem de exemplo. Os nomes próprios se escrevem com inicial grandona. É o caso de João, Maria, Pará, Colônia, Brasil. Às vezes, porém, eles entram na composição de substantivos comuns. Tornam-se vira-latas: joão-de-barro, castanha-do-pará, água-de-colônia, pau-brasil, banho-maria, maria vai com as outras.

Cristo e Judas têm pedigree. São personagens pra lá de importantes do Novo testamento. Também há homens que se chamam Cristo e Judas. Em ambos os casos, escrevem-se com inicial maiúscula. Mas a dupla pode ser referida metaforicamente. Judas simboliza o traidor (o judas da história, malhação do judas). Cristo, vítima de perseguição ou zombaria. Também pessoa que paga pelos outros: ser cristo, bancar o cristo.

O mutante
Ao dizer que Temer compara Levy a Cristo, o jornal acertou. Nos demais casos, a pequenina pede passagem: Levy, de judas a cristo. Não se pode criar um judas. A presidente disse que Levy não pode ser visto como um judas.

Deu pra entender? Os dois são referidos metaforicamente -- o traidor e o que paga pelos outros. Resumo da opereta: Na língua, quem foi rei perde a majestade sim, senhor.

Leitor pergunta

Li na Veja: "Rodrigues, flagrado assistindo a pornografia no celular". Assistir, no sentido de ver, é transitivo indireto. Pede a preposição a. Mas tenho a impressão de que, na frase, a ausência de crase tem explicação. Consultei a gramática. Sem obter resposta satisfatória, peço ajuda à coluna.
Olimpia do Canto, lugar incerto

Você tem razão, Olimpia. Assistir pede a preposição a. Ela está presente na frase. O que falta é o artigo. O pequenino não tem vez porque não se trata de pornografia determinada, mas uma pornografia qualquer, indefinida. Com um substantivo masculino, fica clara a ausência do pequenino: Rodrigues, flagrado assistindo a filme no celular. Rodrigues, flagrado assistindo a pornografia no celular.

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