Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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Vírgula 1

09/07/2015 11:12

O calo mais doloroso da língua? É a vírgula. São tantas informações desencontradas que a moçada mergulha em mar revolto de confusão. Alguns dizem que o emprego do sinalzinho depende do gosto do freguês. A gente o põe onde tem vontade. Outros afirmam que basta ler a frase. Parou pra respirar? Pronto. Taca-lhe a pausa. Aí surge um problema. Como os asmáticos vão se virar? Outros, ainda, juram que o melhor é consultar a meia dúzia de criaturas que dominam o assunto. José Cândido de Carvalho conta história que tem tudo a ver com a turma folgada.

Freixeiras, funcionário da Companhia de Água e Esgotos do Rio de Janeiro, tinha um grande orgulho. Era a única pessoa na repartição que sabia pôr as vírgulas no lugar certo. Todos o reverenciavam por isso. Ninguém ousava contrariá-lo. Mas um dia... Chegou novo chefe. O mandachuva assinava a correspondência. Um pouco distraído, pediu a Freixeiras que tirasse certa vírgula de certo lugar. Freixeiras tremeu. Que ousadia! Ficou duas horas remoendo tira-a-vírgula-não tira-a-vírgula. Finalmente, decidiu-se. Foi à sala do diretor e intimou-o:

— Ou eu ou a vírgula.

A demissão do virgulino obrigou os demais servidores a deixar o comodismo. Pra garantir o emprego, eles resolveram estudar. Consulta daqui, pesquisa dali, descobriram que o diabo não é tão feio quanto o pintam. O emprego da tão temida pausa obedece a três regras. Ela separa sempre: termos coordenados, termos explicativos e termos deslocados. Como diz o esquartejador, vamos por partes. Comecemos pelos coordenados.

Que bicho é esse?
Coordenado significa ordenado ao lado do outro. Imagine que você esteja no cinema. Há vários espectadores. Um é independente do outro. Tem sua cabeça, suas pernas, seus olhos. Eles escolhem um lugar e sentam-se. Para não ficarem embolados, o descanso da poltrona os separa. Os cinéfilos ficam coordenados.

A língua imita a vida. Na frase, também aparecem termos independentes. A única relação entre eles é estarem postos um ao lado do outro. Sempre que numa oração aparecer mais de um sujeito, mais de um objeto, mais de um adjunto, haverá termos coordenados. Como os espectadores do cinema, eles precisam ser separados. Há dois jeitos. Um deles é recorrer à vírgula. O outro, pedir ajuda à conjunção. Eis exemplos:

Paulo, Luís, João e Maria (sujeito composto) foram ao cinema.
Gosto de cinema, teatro, música (objeto composto).
José viaja de trem, carro, ônibus, avião (adjunto adverbial composto).


Moleza, não? Só erra quem sofre ataque de bobeira.

Pras cucuias

Na separação dos termos compostos, o e brinca de esconde-esconde. Ora aparece. Ora some. É capricho? Não. Ele manda um recadinho aos leitores. Examine as duas frases:

Na feira, comprei laranja, pera, maçã, abacate e figo.
Na feira, comprei laranja, pera, maçã, abacate, figo.


Reparou? A presença do e diz: comprei só as frutas enumeradas. Nenhuma mais. A ausência do ezinho significa que comprei outras frutas além das citadas. Funciona como o etc.

Dica: o etc. é recurso de preguiçoso. Sem ele, a frase fica mais elegante. Mande-o pras cucuias.

Refrescando a memória
Lembra-se das conjunções coordenativas? São aquelas cinco que todos os alunos sabem de cor e salteado: aditivas (e, nem), adversativas (mas, porém, todavia, contudo, no entanto), alternativas (ou, ou; ora, ora), explicativas (pois, que, porque), conclusiva (pois, portanto, logo).

Assim como existem termos coordenados, existem as orações coordenadas. Elas se dividem em dois grupos:

1. Assindéticas. Elas querem distância da conjunção. Ficam só com a vírgula: Cheguei, vi, venci. Trabalho, estudo, viajo.

2. Sindéticas. Essas são gulosas que só. Exigem a conjunção e a vírgula. É dose dupla: O deputado falou muito, mas não convenceu. Ou estuda, ou trabalha. Feche a porta, que seu pai está dormindo. Penso, logo existo.

Caso especial
O e ficou de fora? Ficou. Ele detesta excessos. Por isso, dispensa a vírgula: Trabalho e estudo. Vou a Pernambuco e depois à Paraíba.

Só num caso vai de dose dupla. Aí, impõe duas condições. Uma: as orações têm que ter sujeitos diferentes. A outra: a possibilidade de provocarem confusão. Veja:

O Estado Islâmico atacou Palmira e a Síria reagiu.

Percebeu? O período tem orações com sujeitos diferentes. Um é Estado Islâmico. O outro, Síria. Uma leitura rápida dá a impressão de que o Estado Islâmico atacou Palmira e a Síria. O que fazer? Usar a vírgula antes do e: O Estado Islâmico atacou Palmira, e a Síria reagiu.

Atenção, descuidados
A vírgula aparece antes da conjunção. Não depois.

 

Dad Squarisi 


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