Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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Crase 2

27/07/2015 11:54

Dad Squarisi

A caminhada pelo universo da crase começou na coluna passada. Passamos por diferentes trilhas. Uma delas, o porquê do emprego do acento grave. Outra, o macete pra escapar de ciladas. Por fim, o mistério guardado por nome de cidades, estados e países. Vamos continuar? Mãos à obra.

Casaizinhos
A língua copia a vida. Lá e cá existem os casais. O que acontece com um acontece com o outro.

De segunda a sexta.


De é preposição pura. A só pode ser preposição pura. Em ambas o artigo não tem vez:
Trabalho de quarta a sexta.
A farmácia faz entregas de segunda a sábado.
Vejo tevê de domingo a domingo.


*

Da rodoviária à quadra comercial.
Da é combinação da preposição de com o artigo a. O à vai atrás. O acento serve de prova da fusão.
Mais exemplos: Li da página 8 à página 12. O expediente é de segunda a sexta, das 8h às 18h30. Trabalho das 14h às 18h.

*

Atenção, gente fina. Às vezes, a preposição de vem casadinha com o artigo o. O sexo não muda a regra. O segundo par mantém a fidelidade: Viajei do Paraguai à França.

Fui de carro do Rio à Paraíba. Corri do aeroporto à rodoviária.

*

Misturar o par de um com o de outro gera deformações. São os cruzamentos. É como casar girafa com elefante. Já imaginou o pobre filhote? Eis um monstrinho:

Horário do expediente: de segunda a sábado, de 7h30 às 20h.

Reparou? O primeiro casalzinho (de...a) merece nota mil. O segundo juntou o parceiro de um par com o parceiro de outro. Xô! A forma bem-amada é: das 7h30 às 20h.

A tentação do diabo

A crase não foi feita pra humilhar. Mas pra tentar. Certas construções dão coceira na mão. Diante delas, o desejo parece irresistível. Ao menor descuido, lá está o acentinho comprometedor. Seguuuuuuuuuuuuuuuuuura!

Tentação satânica são as palavras repetidas. Ao vê-las, dobre os cuidados. Pare, pense e controle-se. Lembre-se de que as duplinhas têm alergia à crase. Não aceitam o sinalzinho nem a pedido dos deuses do Olimpo: face a face, cara a cara, semana a semana, frente a frente, uma a uma, gota a gota.

No caso, o artigo não tem vez. Se tivesse, o primeiro par viria devidamente acompanhado. Não vem. Sem artigo, nada de crase. Deixe a tentação para apelos mais fortes.

Aparências que enganam
-- Crase antes de pronome possessivo?

Os precipitados têm a resposta na ponta da língua:
-- É facultativa.

Os atentos pensam duas vezes:
-- Depende da frase.

E daí?
O pronome possessivo goza de privilégios. Ora vem acompanhado de artigo. Ora não. Por isso, a gente pode dizer:

Minha cidade tem duas faculdades.
A minha cidade tem duas faculdades.


A crase é a fusão da preposição a com o artigo a. Quando o artigo é facultativo, a crase também é. Logo, está certinho da silva escrever:

Vou a minha cidade.
Vou à minha cidade.


Na incerteza, banque o São Tomé. Recorra ao tira-teima. Substitua a palavra feminina por uma masculina. Se no troca-troca aparecer ao, sinal de crase. Caso contrário, xô, grampinho:

Vou a (ao) meu país.

*

Olho vivo! Nem tudo o que reluz é ouro. Há uma construção enganadora. O a que antecede o possessivo tem cara de artigo. Mas artigo não é. Trata-se do ardiloso pronome demonstrativo:

Não fui a (à) minha cidade, mas à sua.


Desmembrada a segunda oração, temos:

Não fui a (à) minha cidade, mas à que (àquela que) é sua.

O raciocínio é um só: o artigo é facultativo. O pronome não. Exige o sinal de crase. Aplique o tira-teima:

Não fui a (ao) meu país, mas ao seu.

Leitor pergunta
Ateu tem feminino?

Fernanda Sereja, Recife

Tem, Fernanda. É ateia. Reparou? A reforma ortográfica cassou o acento do ditongo aberto ei das paroxítonas. É o caso de ideia, assembleia e, claro, ateia.


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