Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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Metralhadora contra a língua

17/08/2015 16:33

Pode? Militar aposentado andava com submetralhadora pra cima e pra baixo pelas ruas de Porto Alegre. Circulava armado com a naturalidade de quem respira ou bebe água pra matar a sede. Num descuido do valentão, a polícia o prendeu. E, claro, foi à casa dele pra descobrir o que havia por lá. Ops! O homem tinha armas pra dar, vender e emprestar.

Jornais, rádios, tevês e internet noticiaram o fato. Alguns tropeçaram na língua. Duas vítimas gritaram por socorro. Uma delas: a grafia. A outra: a economia verbal. Uns escreveram sub-metralhadora. O hífen esperneou. Outros, arsenal de armas. Bobearam. Abusaram do espaço e da paciência do leitor. Sabe por quê?

O sub
Sub pede hífen? Não pede? Pra acertar sempre, lembre-se das três regras de ouro no emprego do tracinho depois de prefixos:

1. O h é majestoso. Não se mistura: anti-herói, super-homem, sub-hepático.

2. Letras diferentes se atraem. Com elas é tudo colado: autoescola, microrregião, subsolo.

3. Letras iguais se rejeitam. Fica uma lá e outra cá: micro-ondas, contra-ataque, sub-bloco.

Sem bobeira
Simples assim. Mas o hífen é castigo de Deus. As regras têm exceções. Uma se refere ao prefixo sub. Ele joga no time dos encontros consonantais. Ao se encontrar com o r, ocorre casamento automático. As duas letras passam a se pronunciar juntas. É o caso de a-bra-ço, co-bre e o-bri-ga-ção. Pra separar a duplinha, só há uma saída — convocar o tracinho. Assim: sub-raça, sub-reitor, sub-repasse, sub-região.

Mais do mesmo

Arsenal de armas é senhor pleonasmo. Pertence à equipe do elo de ligação, habitat natural, jantar à noite e panorama geral. Ora bolas! Todo arsenal é de armas, todo elo é de ligação, todo habitat é natural, todo jantar é noturno e todo panorama é geral. Basta arsenal, elo, habitat, jantar e panorama.

A informação fica completa e a língua enxutinha em frases assim: A polícia encontrou um arsenal na casa do sargento. A tia servia de elo que evitava a dispersão da família. Certas espécies não se reproduzem fora do habitat. Não costumo jantar porque minha digestão é lenta. Na exposição, o procurador apresentou um panorama da Operação Lava-Jato.

Por falar em pleonasmo...
“O que é isso, Benedito?”, perguntou Gustavo Capanema, ministro da Educação de Getúlio Vargas ao governador de Minas. Benedito Valadares chegava para audiência no Catete usando óculos escuros. “Conjuntivite nos olhos”, respondeu. Despediram-se. Ao vê-lo, Getúlio lhe fez a mesma pergunta. E Valadares: “Presidente, o médico lá em Minas disse que é conjuntivite nos olhos. Mas o Capanema, que quer ser mais sabido que os médicos, acaba de me dizer que é pleonasmo”.

Bummmmmm!
É baita dor de cabeça para os bancos. Caixas eletrônicos explodem a torto e a direito. Na capital da República, a cada oito dias um vai para os ares. O assunto, claro, entrou na conversa de gregos, troianos e baianos. Numa delas, pintou a dúvida sobre o gênero da dissílaba.

Caixa joga em dois times. Pode ser feminina ou masculina. A caixa é o recipiente em que se guarda algo. É, também, seção de banco, loja ou repartição pública onde se pagam contas ou se recebe dinheiro (a caixa de joias, a caixa do supermercado). O caixa é o homem que trabalha como caixa. Se for mulher, será a caixa: Paulo é o caixa da loja. Maria é a caixa. Caixa eletrônico? É sempre masculino sim, senhores.

Leitor pergunta


Nos títulos de matéria de jornal, procuramos, sempre que possível, empregar o presente. Podemos proceder assim mesmo que um evento ainda não tenha ocorrido? Ou, nesse caso, só podemos usar o futuro?
Gabriela Lacerda, Brasília

O presente, Gabi, é tempo pra lá de versátil. Adapta-se ao presente, ao passado e ao futuro:

Estudo inglês todos os dias. Viajo no fim do ano. Em 1500, Pedro Álvares Cabral sai de Belém e chega a este país que, de tão grande, parece continente.

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