Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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A que horas?

16/09/2015 16:35

“A coisa está feia”, disse Roberto Barreto de si para si. Ele lia notícia pra lá de alvissareira. Película brasileira vai disputar o Oscar de melhor filme estrangeiro. O orgulho tomou ducha fria ao ver o nome da obra — Que horas ela volta? Depois do choque, o leitor formulou pergunta indignada: “Com erro linguístico escancarado no cartaz, a produção verde-amarela merece a estatueta?”

Rangel Cavalcante foi além. Em mensagem ao amigo Paulo José Cunha, escreveu: “Um erro de português pode prejudicar nossa imagem no exterior. O Brasil investe mais de R$ 1,5 milhão, e o filme que pode nos representar em Hollywood exibe título que desrespeita a língua. Como é que pode? Como se explica o descuido?”

A resposta

Tanta indignação se explica. A língua é o cartão de visita do país. Com o erro, ficamos mal na foto. Damos atestado de má escola. Ou, como diziam as vovós de antigamente, provamos que nosso primário foi malfeito.

Em tempos idos e vividos, o professor ensinava e o aluno aprendia. Ao deixar as salas de aula, a meninada sabia a lição na ponta da língua: a indicação de horas tem manhas. Uma delas — a exigência de certas companhias. No caso, a preposição a. O nome do filme encheria os cidadãos de orgulho se fosse este: A que horas ela volta?

Preposição
A preposição não aparece só na pergunta. Também está presente na resposta. Veja:

A que horas ela chega? Ela chega às 10 horas.
A que horas a aula começa? A aula começa ao meio-dia.
A que horas Maria viajou? Ela viajou às 11 horas da noite.

Artigo
O artigo é também presença obrigatória na indicação de horas. Daí a crase. O encontro da preposição a com o artigo a resulta no casadinho à. Duvida? Então apele para o tira-teima. Substitua a hora por meio-dia. Se no troca-troca der ao, sinal de união inseparável. Quer ver?

Chego às duas horas. (Chego ao meio-dia.)
Trabalho das 2h às 4h. (Trabalho das 2h ao meio-dia.)
Ela viajou às 11h da noite. (Ela viajou ao meio-dia.)

Cadê?
Se o artigo é obrigatório, merece nota zero a estrutura que o esnoba. É o caso de “de...às”, que aparece em frases como estas: O programa vai de 8h às 11h. Estudo de 7h30 às 12h30. O expediente se estende de 8h às 18h.

Viu? O de é preposição pura. Na indicação de horas, o artigo pede passagem. Melhor abrir-lhe caminho. Assim: O programa vai das 8h às 11h. Estudo das 7h30 às 12h30. O expediente se estende das 8h às 18h.

Sem privilégios
A indicação de horas exige preposição. Nem sempre é o a. Outras também têm vez. Abra os olhos. Seja qual for a preposição, o artigo não arreda pé. Está sempre, sempre mesmo, presente: Estou aqui desde as 2h. A reunião foi marcada para as 16h. Atende entre as 16h e as 18h.

Viu? Desde, para e entre são preposições. Se aparece uma preposição, o a não tem vez. A crase também não.

Leitor pergunta

Internet é substantivo comum, escrito com inicial minúscula. Facebook é também substantivo comum?
José Fernandes Costa, Recife

Internet nasceu substantivo próprio. Escrevia-se com a inicial grandona. Com o tempo, tornou-se nome de mídia como jornal, rádio, tevê. Tornou-se vira-lata: Obtenho informações no jornal, no rádio, na tevê e na internet.

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