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De língua e pessoas

21/09/2015 14:10

A edição 162 da revista da Gol trouxe boa matéria sobre o Rock in Rio. Mas lá pelas tantas, escreveu: “Agora em 2015 é o universitário Michael Azevedo, 25 anos, quem fará o que for preciso para ficar mais perto de sua ídola: a cantora Rihanna”. Passageiros leram. Alguns, sonolentos, passaram adiante. Outros, atentos, estranharam a língua. Uma das pulgas que lhes ficou atrás da orelha foi o emprego do pronome quem. A outra, o gênero de ídolo. “O redator pisou a bola?”, perguntaram eles. Pisou.

Dá uma força, vai
A língua é como as pessoas. Nós gostamos de realçar o que merece destaque. Pomos colar no pescoço bonito, anel no dedo cuidado, presilha no cabelo invejável, etc. e tal. Ela não fica atrás. Cria meios de enfatizar palavras e declarações. Um deles: a duplinha é que. A expressão não exerce função sintática. Pode cair fora sem fazer falta à estrutura da frase. Mas, sem ela, a declaração perde temperinho que lhe dá sabor especial.

Qual o problema do enunciado? O redator se esqueceu de pormenor pra lá de importante. A expressão é invariável. Em qualquer circunstância, apresenta a mesma cara — é que. Assim: Nós é que somos brasileiros. O Flamengo é que é o melhor time do Brasil. Eles é que sabem das coisas. É o índio do Xingu que faz a melhor tapioca do país.

Tira-teima
A partícula é expletiva? Então pode bater asas e voar. O recado será dado sem ela. Perderá um pouco de graça, é verdade, mas manterá a ideia: Nós somos brasileiros. O Flamengo é o melhor time do Brasil. Eles sabem das coisas. O índio do Xingu faz a melhor tapioca do país.

Voltemos à vaca fica. O repórter escreveu é quem — Agora em 2015 é o universitário Michael Azevedo, 25 anos, quem fará o que for preciso para ficar mais perto de sua ídola: a cantora Rihanna. Bobeou. Mereceria nota mil se tivesse respeitado o capricho da dupla manhosa. Assim: Agora em 2015 é o universitário Michael Azevedo, 25 anos, que fará o que for preciso para ficar mais perto de sua ídola: a cantora Rihanna.

Duvida? Vamos ao tira-teima. Sem o realce, o período ganha esta forma desidratada: Agora em 2015 o universitário Michael Azevedo, 25 anos, fará o que for preciso para ficar mais perto de sua ídola: a cantora Rihanna.

Idolatria
Em latim, idolum quer dizer imagem. Em grego, fonte da língua dos Césares, eídolon tem o mesmo significado. Em português, ídolo dá nome a objeto, entidade ou pessoa por quem se tem sentimentos exagerados de afeição. Por quê? Por uma razão simples. A gente lhes atribui qualidades excepcionais. Pelé, Ayrton Senna, Neymar, Maria Bethânia, Fernanda Montenegro servem de exemplo.

Ídolo é criatura tão excepcional que só tem uma forma — a masculina. Ele é o ídolo. Ela é o ídolo. Nosso repórter embarcou em brincadeirinhas de ídolas. Em português nota 1000, ele teria escrito: Agora em 2015 é o universitário Michael Azevedo, 25 anos, que fará o que for preciso para ficar mais perto de seu ídolo: a cantora Rihanna

Por falar em ídolo...
“Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra; não as adorarás nem lhes darás culto; porque eu sou o Senhor teu Deus, Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira ou quarta geração daqueles que me aborrecem.” (Êxodo, 20,4-5)

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“Não é bom tocar nos ídolos. O dourado que brilha neles pode se dissolver em nossas mãos.” (Gustave Flaubert)

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“Eu não tenho ídolos. Tenho admiração por trabalho, dedicação e competência.” (Ayrton Senna)

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“O povo tem mania de criar ídolos, e a mania do ídolo é menosprezar o povo.” (Júlio Camargo)

Leitor pergunta

Li a frase: "Reunião de gigantes da indústria elencaram medidas”. Pintou a dúvida. Existe o verbo elencar?
Hildebrando Balvedi, lugar incerto

O dicionário registra o verbete elencar na acepção de enumerar. É o caso, não?

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