Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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O quê dos quês

07/10/2015 09:56

Dad Squarisi

‘‘Trabalhar pra quê?’’, perguntou a manchete do jornal. A questão gerou polvorosa. Leitores estranharam o texto. A turma se dividiu em dois grupos. Um recusava o circunflexo do quê. O outro o aplaudia. E daí? O quê é grande criador de caso. Não cansa de provocar dores de cabeça nos pobres tupiniquins. Recursos não lhe faltam. De um lado, a criatura tem o poder da mobilidade. Troca de lugar como nós trocamos de camisa. De outro, muda de classe gramatical. Passa de pronome a substantivo com a facilidade de quem anda pra frente.

Resultado: ele se diverte, nós pagamos o pato. O xis da questão é o acento. Quando usá-lo? Em duas oportunidades:

1. quando o quê for substantivo. Aí será antecedido de pronome, artigo ou numeral: Ele tem um quê de desvairado. Qual o mistério dos quês? A coluna de hoje trata do quê com acento e sem acento. Este quê não me confunde mais. Belo quê você introduziu na redação.

2. Quando o quê for a última palavra da frase — a última mesmo, coladinha no ponto. É o caso da manchete do jornal: Trabalhar pra quê? Riu, mas não disse por quê.Você se atrasou por quê? Cheguei tarde, mas me nego a dizer por quê.

É isso. Desvendados os dois empregos, o quê recolhe-se à própria insignificância. Os leitores que arrancavam os cabelos por causa do acentinho chegam à conclusão óbvia: o diabo não é tão feio quanto o pintam. O quê diz por quê.

Masculinidade em xeque
Centenas de fãs assediavam o bonitão. Queriam um olhar, uma palavra, um toque. Ele, sedutor, não poupava esforços. Falava com uma, sorria pra outra, jogava beijinhos pra todas. A mais ousada comprou flores. Chegou-se a ele e, com malícia, entregou-lhe o buquê. O charmoso agradeceu:

— Muito obrigada, queridas amigas.

As moças murcharam. Decepcionadas, deram-lhe as costas. O atônito desprezado não entendeu nada. Nem desconfiou de que, ao agradecer, pôs a masculinidade em xeque. A razão: o homem diz obrigado. A mulher, obrigada. Ambos respondem por nada.

Ser natural é…
Escolher palavras simples e curtas. Em vez de somente, use só. Em lugar de falecer, prefira morrer. Substitua féretro por caixão. Obviamente por é claro. Morosidade por lentidão.

Nobreza em cartaz
Voltou a temporada do reconhecimento mundial. Escritores, cientistas, políticos estão de olho na Suécia. De lá vem o anúncio do mais cobiçado prêmio de todos os tempos. É o Nobel. Apesar da nobreza que o cerca, muitos lhe desrespeitam a pronúncia. Olho vivo!

Nobel, Mabel, papel e cruel se pronunciam do mesmo jeitinho. A sílaba tônica é a última. Na dúvida, pense um pouco. Se Nobel fosse paroxítona, pertenceria à gangue de móvel e automóvel. Teria acento. Como não tem, a conclusão é uma só. O nome do prêmio é oxítono e não abre.

Sem confusão
Olho vivo! A pronúncia de hora e ora é a mesma. Mas o sentido não tem nenhum parentesco. Veja como não cair na esparrela de tomar uma pela outra:

Hora significa 60 minutos: A velocidade na ponte é de 60km por hora. Ganho R$ 50 por hora de trabalho. Quando divertir-se? A qualquer hora. Afinal, como diz o outro, toda hora é hora.

Ora quer dizer por enquanto, por agora: Por ora, a velocidade na ponte é de 60km por hora. O governo não pretende, por ora, privatizar as universidades federais. Lamento, mas, por ora, nada posso fazer.

Faixa
“Ela passou a faixa”, diz a capa da Veja. Leitores ficaram curiosos. Chamou-lhes a atenção o x. Por que não ch? O som é exatamente o mesmo. Mas a grafia não. Acontece que a língua não é a casa da mãe joana. Tem regras. Depois de ditongo, o som xis se grafa com x: caixa, baixa, gueixa, frouxo, ameixa, feixe.

Leitor pergunta
Tenho dificuldade de distinguir ó e oh! Pode me dar uma ajudinha?

Serena Lopes, Goiânia

A dúvida procede. A pronúncia de uma é gêmea univitelina da outra. Por isso, na hora de escrever, pinta a confusão. São duas grafias. E dois sentidos. Como acertar sempre?

O ó aparece no vocativo, quando gente chama alguém: Deus, ó Deus, onde estás que não me escutas? Até tu, ó Brutus, meu filho? Seu pai morreu? Morreu pra você, ó filho ingrato.

O oh! é interjeição. Tem vez quando a gente fica de boca aberta de admiração ou espanto: Oh! Que linda voz! Oh! Que trapaceiro! Ó Paulo, não entendi seu oh! de espanto. Pode me explicar?

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