Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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Olho na colocação

21/10/2015 10:07

Dad Squarisi

Há leitores e leitores. Alguns se interessam sobretudo pela notícia. Leem o texto na horizontal. A língua fica em segundo ou terceiro plano. Outros, mais exigentes, querem informação e bom texto. É o caso do Paulo José Cunha. Ao abrir livro, jornal ou revista, ele multiplica os olhos. Enxerga tudo. Este fim de semana não foi diferente. Eis a mensagem que mandou pra coluna: “Em matéria sobre a apuração das contas de campanha de Dilma, a revista Época deste fim de semana escreveu: `O material enviado aos policiais indicam o uso de laranjas e notas frias´. Viu? O termo laranjas entrou na esparrela da língua”.

Limites

As palavras gozam de plena liberdade. Passeiam na frase com desenvoltura. Às vezes, o sujeito aparece no início da oração. Outras, no meio. Aqui e ali, no fim. As voltinhas não se restringem ao sujeito. Boa parte dos termos lança mão do privilégio sem cerimônia. Mas o vai e vem tem limite. O freio tem tudo a ver com as exigências da clareza e da coerência. Exemplo citado a torto e a direito é este:

Comprei uma meia de mulher de náilon.


A primeira leitura deixa a mensagem: a mulher é de náilon. Falso. A meia, sim, é de náilon. Como fugir da ambiguidade? Há jeito. Aproxime os termos que têm relação. Eis três saídas: Comprei uma meia de náilon para mulher. Comprei uma meia de náilon feminina. Para mulher, comprei uma meia de náilon.

O caso da Época

A colocação dos termos laranjas e notas gerou a maior confusão. Analise:

O material enviado aos policiais indicam o uso de laranjas e notas frias.

Viu? O adjetivo frias abarca laranjas e notas. Mas, no duro, no duro, só se refere a notas. Melhor Separar lé de cré. Uma das possibilidades é mudar a ordem dos termos. Com o troca-troca, a clareza sobressai. Assim:

O material enviado aos policiais indicam o uso de notas frias e laranjas.

É isso. Como repetia Montaigne, o estilo tem três qualidades. O primeiro: clareza. O segundo: clareza. O terceiro: clareza. Nós completamos: se sobrar espaço, o quarto — clareza.

Quantia

O povo sabido diz que um é pouco, dois é bom, três é demais. Com a língua, a história muda de enredo. Um é suficiente. Por isso, não diga quantia de dinheiro. É redundância. Basta quantia.

Ganha-pão
O plural de ganha-pão? É ganha-pães. A dupla joga no time de guarda-roupas, beija-flores e lustra-móveis. Na composição de verbo mais substantivo, só o nome se flexiona. O companheiro fica no bem-bom.

Cybergírias

A linguagem dos computadores trouxe a gíria da atualidade. Printar é uma delas. Deletar, outra. Digitar, mais uma.

Leitor pergunta

Por qual razão a fulana é uma garota má, porém mal-educada? A criança é má ou mal?

Edilson Zafira de Sousa, lugar incerto

Trata-se da classe gramatical. Má é adjetivo, feminino de mau. O contrário é boa, bom: menina má, bruxa má, conduta má, menino mau, lobo mau, mau comportamento.

Mal joga em outro time. Pode ser substantivo (mal do século, mal da atualidade, mal da política) ou advérbio (come mal, mal-humorado). É o contrário de bem. No exemplo que lhe dá nó nos miolos, concorrem as duas classes gramaticais: Ela é uma garota má e mal-educada. A irmã nem parece irmã. É boa e bem-educada.

*

Nas minhas leituras, já vi escrito câmpus e campus. Qual é a forma correta?


Maurício, Florestal


A forma aportuguesada câmpus (sem itálico nem aspas) ganha espaço na imprensa e na comunicação moderna. Até o MEC a adotou. Como ônus e bônus, tem a mesma forma pro singular e plural.

A universidade prefere manter a forma latina campus pra nomear o conjunto de terreno e prédios da instituição. É metida a besta que só. Mais besta é o plural. Nada menos que campi.


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