Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

publicidade

Era uma vez...

26/10/2015 10:41

Dad Squarisi

Henrique Pizzolato era diretor do Banco do Brasil. Além de prestígio e salário invejável, recebia tratamento VIP. A convivência com poderosos lhe deu a sensação de superpoder. Resultado: envolveu-se com as falcatruas do mensalão.

Como diz o outro, o homem faz e Deus desfaz. Quem se sentia acima da lei caiu nas malhas da Justiça. Foi julgado e condenado. Passar 12 anos na Papuda? Nem pensar. “Prefiro morrer do que cumprir pena no Brasil”, disse ele. Bateu asas e voou pra Itália.

Não colou. Ele teve de voltar. Ao lhe darem a notícia, todos esperavam que repetisse a frase. Não repetiu. Mas, mesmo assim, a sentença ganhou espaço em jornais, rádios e tevês. Brasileiros atentos prestaram atenção a ela. Ops! Cadê regência?

Mistura doida
O verbo preferir sofre de doença pra lá de comum. É o contágio. Muitos confundem a regência dele com a de gostar. Aí, não dá outra. A frase vira o samba da mistura doida. Que tal demarcar o limite de um e de outro?

Gostar
A gente gosta de alguém ou de alguma coisa: Gosto de cinema. Gostamos de viajar na baixa estação. Alguém gosta de restaurante com música alta?

Gostar admite o grau comparativo. Pode-se gostar mais ou menos: Gosto mais de Maria que de Paula. Gosto menos de Paula que de Maria. Ela gosta mais de cinema que de teatro.

Preferir
Olho na diferença, moçada. Prefere-se sempre uma coisa a outra: Prefiro cinema a teatro. Preferiram o Rio a Maceió. A jovem preferiu Paulo a Pedro.

Viu? Ao dizer “prefiro morrer do que cumprir pena no Brasil”, Pizzolato trocou a preposição. Usou a de gostar (de). Bobeou. O a, glorioso, pede passagem: Prefiro morrer a cumprir pena no Brasil.

Há mais

Dizer “prefiro mais”? Nem pensar. No sentido do verbo, está contido o mais & cia. intensificadora. Afinal, preferir é gostar mais. Por isso, deixe pra lá exageros como estes: Prefiro (mais) peixe a frango. Prefere (mil vezes) cinema a teatro. Preferia (antes) legumes crus a legumes cozidos.

Time de dois

A duplinha é preferível joga no time de preferir. Ela também exige a preposição a: É preferível almoçar a jantar. No verão, é preferível banho frio a banho quente. Pra melhorar a redação, é preferível praticar a decorar regras.

Você escolhe
Gosto mais de Paula que de Maria? Gosto mais de Paula do que de Maria? Tanto faz. Você escolhe. Prefiro a primeira. Na linguagem moderna, menos é mais. Se uma palavra dá o recado, pra que duas?

Por falar em menos...
Muitas palavras encurtaram ao longo da vida. Uma delas é extra. No começo, era extraordinário. Pronunciar palavra tão compriiiiiiiiiida? Que preguiça! Entrou em cena a lei do menor esforço. A polissílaba virou dissílaba. Cinema foi outra que encolheu. Antes era cinematográfico. Imagine a cena: “Meu bem, vamos ao cinematográfico?” Bicicleta é mais uma. O povo corre atrás até de vocábulos estrangeiros pra economizar. Adotou a inglesinha bike.

Leitor pergunta

Concluso ou concluído?

Gérson Sereno, Rio

Concluir, Gérson, é verbo generoso. Tem dois particípios — concluso e concluído. Ele, entre tantos outros, joga no time de anexar (anexado e anexo) e agradecer (agradecido e grato). Quando usar um ou outro? A regra manda usar o grandão com os auxiliares ter e haver (tinha e havia anexado, tinha e havia agradecido, tinha e havia concluído) e o curtinho com ser e estar (foi e está anexo, foi e está grato, foi e está concluso).

Mas, na língua como na vida, nem todos são obedientes. Há os que adoram pisar a norma. Os verbos abundantes servem de exemplo. Alguns se tornam permissivos. Dizem indiferentemente: está anexo ou está anexado, foi agradecido ou foi grato, está concluído ou está concluso.

PESQUISA DE CONCURSOS