Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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Eu sou mais eu

25/11/2015 09:08

Dad Squarisi

Brasília está em chamas. De um lado, grupos pedem o impeachment de Dilma Rousseff. Distribuem faixas pelo Distrito Federal a torto e a direito. “Fora Dilma”, diz o texto. De outro, manifestantes exigem a renúncia de Eduardo Cunha da presidência da Câmara dos Deputados. “Fora Cunha”, mandam cartazes e panfletos.

A coisa se arrasta em banho-maria. Muito barulho, pouca definição. Por quê? Ninguém sabe ao certo. Mas há palpites. O mais repetido se refere à língua. Inimigos de Suas Excelências pisaram a pontuação. Esqueceram pormenor pra lá de importante. Trata-se do elitismo do vocativo. Ele não se mistura. Sempre, sempre mesmo, se separa por vírgula. “Eu sou mais eu”, anuncia alto e bom som.

Será? Pelo sim, pelo não, vale tratar bem o português nosso de todos os dias. Chamamento é termo à parte. Chamam-no de marginal. Não pertence aos termos essenciais, integrantes ou acessórios da oração. Quem tem dúvida em identificá-lo não precisa morrer na praia. Basta antecedê-lo de ó. Assim: Fora, (ó) Dilma. Fora, (ó) Cunha. Pra frente, (ó) Brasil. (ó) Deus, ó Deus, onde estás que não me escutas? (ó) Senhor diretor, encaminho a V.Sª os documentos anexos.

De renúncias e renúncias

“Eu não renuncio ao cargo”, jurou Eduardo Cunha de pés juntos. “Se ele não renunciar, então vai ter de ser renunciado”, respondeu Fernando Henrique Cardoso. Ops! A frase ficou engraçada. Mas... tem parafuso fora do lugar. O ex-presidente brincou com a língua. Pôs na voz passiva verbo que não admite ser apassivado.

Vem, passiva
Há verbos que jogam em dois times. São os transitivos diretos. Ora eles dão o protagonismo ao sujeito. Deixam que pratique a ação. Ficam, então, na voz ativa. Ora deixam o sujeito passivo. O coitado não pratica a ação. Não dá outra. Ficam na voz passiva. Veja:

*O professor ensina a lição.


A gente ensina alguma coisa. O quê? A lição. O verbo é transitivo direto. Pede um objeto direto (a lição). O sujeito (professor) pratica a ação. O verbo está na voz ativa.

Compare:
*A lição foi ensinada pelo professor.

Percebeu? O professor pratica a ação. Mas não é o sujeito. Por isso o verbo está na voz passiva. O sujeito (a lição) era o objeto direto da voz ativa. Mudou de função. Mas não assumiu o protagonismo.

Xô, passiva
Renunciar? A gente renuncia a alguma coisa. A preposição a não deixa dúvida. O verbo é transitivo indireto. Não tem voz passiva. Sem brincadeirinha, a frase fica assim: Se ele não renunciar, será cassado. Se ele não renunciar, terá de ser cassado.

Mais
Tem de? Tem que? Tanto faz. No português moderno, as duas construções merecem nota 10.

Sou cega
O radialista Airton Medeiros entrevistava ao vivo na Rádio Nacional a presidente de uma associação de cegos. Dizia que ela era cega. Lá pelo meio do programa, recebeu um papelzinho com a recomendação de que a tratasse de “deficiente visual”. Antes de obedecer à ordem, perguntou se deveria tratá-la de cega ou de deficiente visual. Ela aproximou as mãos do rosto dele até tocar os óculos. Então afirmou: “Deficiente visual é você, que usa óculos. Eu sou cega”.

Leitor pergunta

Aético, antiético e anético são sinônimos?

Márcia, Boa Vista


O Houaiss diz que são sinônimos. Pertencem ao time que joga contra a ética. Xô!

***

A edição de hoje do jornal O Sul trouxe como manchete principal a frase "Congresso derruba veto, e voto impresso passa a ser obrigatório". Minha dúvida: o e precedido de vírgula merece aplauso? Ou o sinalzinho sobra?

Marco A. Cabral Gonçalves, Arroio Teixeira


A vírgula é obrigatória. Sabe por quê? Sem ela, a leitura rápida dá a impressão de que o Congresso derrubou o veto e o voto impresso. Só na segunda leitura fica claro que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. A vírgula ajuda a fazer a leitura correta de primeira. Viva!

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