Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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Andar pra trás

02/12/2015 11:18

Dad Squarisi

Que legal! Desde 1996, o Brasil se tornou referência mundial em rapidez na eleição. Os quase 200 milhões de cidadãos votam e, horas depois, sai o resultado. É show. Mas, como diz o outro, não há bem que sempre dure nem mal que nunca se acabe. Cortes no orçamento do tribunal podem trazer de volta o papel que tinha sido substituído pela tela.

“É retrocesso”, disseram gregos, romanos e baianos. No meio do esperneio, a expressão voltar atrás ganhou espaço. Pintou, então, a dúvida. A duplinha forma pleonasmo?

Não. O emprego de voltar na acepção de retrocesso precisa do atrás. Sem a companhia, pode ser voltar pra casa, voltar pra cidade, voltar pro antigo amor.

Tira-teima
Voltar atrás não joga no time dos pleonasmos. Duvida? Compare com subir pra cima, descer pra baixo, entrar pra dentro, sair pra fora. Ou elo de ligação, países do mundo, duas metades iguais, fato real. Ora, só se sobe pra cima, só se desce pra baixo, só se entra pra dentro, só se sai pra fora. Todo elo é de ligação, todos os países são do mundo, todo fato é real, duas metades são sempre iguais. Mas... voltar nem sempre é pra trás.

Por falar em pleonasmo...
Pleonasmo é palavra grega. Lá como cá, mantém o significado. É a redundância de termos, a superabundância. Como sobremesa em excesso, enjoa. Xô! A língua, como as pessoas, gosta da boa forma.

Sofisticação
Há pleonasmo e pleonasmos. Alguns estão na cara. Outros são sofisticados. Fazem de conta que não são, mas são. Há exemplos pra dar, vender e emprestar. Quer ver?

Todos foram unânimes? Nãoooooooooooo! Todos indica unanimidade. Melhor conjugar o verbo assumir. Ficar com um ou outro: Todos concordaram. A decisão foi unânime.

*

Manter a mesma equipe? Ops! Só se mantém a mesma. Basta manter a equipe. Se não é a mesma, o verbo muda. Que tal trocar a equipe? Ou mudar a equipe? Alterar a equipe também vale.

*

Não há outra alternativa? Nem pensar. A alternativa é sempre outra. Respeite a paciência do leitor: Não há alternativa.

*

Ele ainda continua doente? Não. Ainda indica continuidade. Continua também. Fique com um ou outro: Ele ainda está doente. Ele continua doente.

*

Disse seu próprio nome? Não. Não. Não. A duplinha rouba promoção, fecha vagas, mata amores: Disse o próprio nome. Disse seu nome.

*

Além de ler, também escreve muito bem. Cruz-credo! Em tempos de vacas magras, o desperdício rola solto. Além de e também transmitem a mesma mensagem. Melhor poupar: Além de ler, escreve muito bem. Lê e também escreve muito bem.

*

Cheguei há duas horas atrás. Nossa Senhora! Há indica tempo passado. Atrás idem. Desça do muro e escolha: Cheguei há duas horas. Cheguei duas horas atrás.

*

Ufa!

Será, mestre?
“Sinais de pontuação são como os de estrada. Se tivéssemos menos deles, haveria por certo menos acidentes porque as pessoas fariam tudo mais devagar e com maior atenção.” (José Saramago)

Leitor pergunta

Hoje, lendo o jornal, encontrei o mesmo erro por duas vezes consecutivas. O uso do verbo haver nestas frases: "haverão abordagens e modelos" e "haverão três turmas. Pisada de bola, não?

Bruna Teixeira, Brasília


Ops! O verbo haver é impessoal em três ocasiões. Aí, só se conjuga na 3ª pessoa do singular:

1. na acepção de existir: Há dois livros na estante.

2. no sentido de ocorrer: Houve distúrbios na passeata de domingo.

3. na contagem de tempo passado: Cheguei há duas horas.


As duas frases citadas por você enquadram-se no primeiro caso: Haverá abordagens e modelos. Haverá três turmas.

Olho vivo! A impessoalidade é contagiosa. Os auxiliares de verbo impessoal se tornam impessoais. Só se flexionam na 3ª pessoa do singular: Há dois livros na estante. Deve haver dois livros na estante. Vai haver dois livros na estante. Pode haver dois livros na estante. Pode haver distúrbios na passeata. Começa a haver distúrbios na passeata. Etc. e tal.

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