Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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Que tal pôr os pontos nos ii?

11/01/2016 11:24

Dad Squarisi

“O se faz muita falta”, escreveu o leitor Raul de Araújo Carneiro. Em longa carta, ele comenta a confusão causada pela ausência do pronome nos verbos pronominais. “Existem frases”, diz ele, “que ficam desconexas. Hoje mesmo assisti na tevê um criador de frango afirmar que `o Brasil está em crise, mas a criação de frango manteve em crescimento´. Manteve o quê?”

Raul continua. “O jornalista Ismar Madeira, relatando sobre os efeitos da lama no município de Mariana, afirmou que `todo mundo vai ter que retirar dali´. Só faltou informar o que será retirado. O nosso Correio Braziliense publicou: `Foi detectado que os médicos suicidavam duas vezes mais que os demais profissionais´. Esqueceu-se de que suicidar-se é pronominal. Sempre.

Minha amiga engenheira me contou que o marido `acorda, alimenta e vai trabalhar´. Só não esclareceu quem o marido alimenta. Cronista escreveu que `o povo está iludindo com este governo´. Iludindo quem? A si mesmo? Então está se iludindo. Diretora declarou que `os alunos não conformam com a paralisação´. Serão eles os inconformados? Então os estudantes não se conformam com o cruzar de braços.

`O atendimento está normalizando aos poucos´, anunciou o INSS. Normalizando o quê? Está se normalizando. `Poucos ônibus movimentam durante a greve´, diz a nota. Movimentam o quê? Ah entendi. Estão se movimentando. `Antônio apaixonou por uma mulher mais nova´, fofoca o amigo. O xará do santo casamenteiro terá se apaixonado? `O goleiro assustou e a bola entrou´, gritou o comentarista. Assustou quem? Ele se assustou?

A falta do pronome rola solta. “Ligue e cadastre fácil”, sugere operadora de celular. “Você vacinou?”, pergunta o médico ao paciente. “Sentiu mal?”. Etc. Etc. Etc. Valha-nos, Deus! Ver a nossa língua ser maltratada é duro. Até o Museu da Língua Portuguesa já se foi.”

Lá de longe
Vamos pôr os pingos nos ii? A pergunta não deixa dúvida. Refere-se ao esclarecimento rigoroso de determinada situação. A expressão nasceu há muuuuuuito tempo — na época em que só se escrevia à mão. Pra evitar que dois is fossem confundidos com u, passou-se a acentuar o i. No século 16, pontos substituíam os acentos. Daí os pontos nos isi.

Desvendado o mistério

“Já se sabe onde se iniciou o incêndio no Museu da Língua Portuguesa: foi num andar denominado Acordo Ortográfico, do subsolo, em que se acumulam descartáveis e inexplicáveis.” (Gledson Luiz Coutinho)

Reforma ortográfica
“Em minha opinião, a retirada do trema foi uma insensatez, para dizer o mínimo. Acho também que a grafia perdeu beleza em todas as situações em que foram retirados os acentos agudos e circunflexos. E acho que a pronúncia de voo não é a mesma de vôo.” (Dárcio Calais)

Leitor pergunta
“Então agora temos k, w e y em nosso alfabeto. Mesmo assim, vamos continuar escrevendo uísque e quilo. Isso me parece muito sensato. E aí eu pergunto como ficam, por exemplo, Nova Iorque (York) e Quênia (Kenya)?

Dárcio Calais, lugar incerto

Ficam como eram: Nova York e Quênia.

***
Li no jornal este título:"Carta à Rollemberg". Cabe a crase?

João Maria Madeira Basto, Brasília


Depende. Rollemberg é o governador do Distrito Federal. O nome pertence ao time masculino. Antes de machinhos, a crase não tem vez. A razão: o acento grave (`) denuncia o encontro de dois aa. Um deles é a preposição. O outro, o artigo.

É aí que mora a confusão. Às vezes, a palavra feminina está subentendida. Mas conta como se estivesse à vista: Não fui à Rua da Praia, mas à (Rua) Machado de Assis. Corta o cabelo à (moda) Roberto Carlos. Dirigiu-se à Livraria Cultura e, depois, à (Livraria) José Olympio.

Se o título em questão se enquadra nesse caso, o acentinho indicador de crase merece nota 10: Carta à (moda de) Rollemberg.

Se Rollemberg for o destinatário, cessa tudo o que a musa antiga canta. O grampinho não tem vez: Carta a Rollemberg (carta para Rollemberg).

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