Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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Cilada da língua

27/01/2016 12:45

Dad Squarisi

“O Brasil perde feio a luta contra o Aedes aegypti”, disse o ministro da Saúde. Sua Excelência causou desconforto em outras excelências e deu passagem a uma dúvida. Ouvintes questionam o emprego de feio. “Não seria feiamente?”, perguntam.

Dizem que a língua é um sistema de ciladas. Adora enganar os falantes. Uma das armadilhas é o emprego do adjetivo com valor de advérbio. Lembra-se do slogan da Skol? “A cerveja que desce redondo” deu nó nos miolos. Trata-se do mesmo caso: o adjetivo com função de advérbio.

Veja exemplos: Desceu rápido. (Desceu rapidamente.) Falou alto. (Falou altamente.) A cerveja que desce redondo. (A cerveja que desce redondamente.) O Brasil perde feio a luta contra o mosquito. (O Brasil perde feiamente a luta contra o mosquito.)

Sem flexão
Olho vivo, moçada! Advérbio é invariável. Mesmo com cara de adjetivo, mantém-se sempre no masculino singular: A cerveja que desce redondo. As cervejas que descem redondo. O vinho que desde redondo. Os vinhos que descem redondo. Maria desceu rápido. Maria e Paula desceram rápido. João desceu rápido. João e Rafa desceram rápido.

Lição de Clarice Lispector

“Não faça do hábito um estilo de vida. Ame a novidade. Tente o novo todos os dias. O novo lado, o novo método, o novo sabor, o novo jeito, o novo prazer, o novo amor. A nova vida. Tente.”

Alto lá
Postos de Brasília formam cartel. Combinam preços. Burlam, com isso, a concorrência. Não adianta rodar. O assalto ao bolso é sempre o mesmo. Cadê fiscalização? O Cade finalmente agiu — determinou intervenção em 60 postos da Rede Gasol. Ops! O fato mereceu comemoração. Na troca de fogos, pintou uma dúvida. Trata-se da conjugação do verbo intervir. O governo... interviu ou interveio?

Intervir deriva de vir. Um e outro se flexionam do mesmo jeitinho: venho (intervenho), vem (intervém), vimos (intervimos), vêm (intervêm); vim (intervim), veio (interveio), viemos (interviemos), vieram (intervieram). Etc. e tal. Viva! O governo finalmente interveio no cartel.

Bobeira
Era segunda-feira. A repórter falava sobre a hanseníase. Disse que a doença tem cura e não deixa sequelas desde que tratada a tempo. É tudo grátis nos centros de saúde. E informou: “O atendimento será de 8h da manhã às 5h da tarde”. Bobeou. A indicação de horas detesta a solidão. Exige sempre, sempre mesmo, a presença do artigo: A aula começa às 10h. O avião decolou à 1h. Almoçamos ao meio-dia. O atendimento será das 8h da manhã às 5h da tarde.

Superdica: na dúvida, apele para o troca-troca. Substitua as horas por meio-dia. Se der ao, é sinal de que a preposição se une ao artigo. Então, dê a vez ao grampinho: Recebo o jornal às 8h. (Recebo o jornal ao meio-dia.) Trabalho das 8h às 14h (Trabalho do meio-dia ao meio-dia). Está fora desde as 2h. (Está fora desde o meio-dia). Simples assim.

Leitor pergunta
Sempre achei que não se começa frase com e nem mas. Porém, no livro que estou lendo, encontrei estas frases: “... ele receberia ordens de Berlim. E seu exército se viu envolvido nos combates.” “Estava preparada para atacar os britânicos. Mas a Operação Barbarossa...” E daí?

Ronaldo Rodrigues da Costa, lugar incerto


O e e o mas são conjunções coordenativas. Ligam orações independentes que podem estar separadas por vírgula ou ponto. Veja:

Lava, passa, cozinha, faz compras e ainda cuida das crianças.
Lava, passa, cozinha, faz compras. E ainda cuida das crianças.


*

Estudou durante dois anos, mas foi reprovado.
Estudou durante dois anos. Mas foi reprovado.


*

Há diferença entre uma e outra? Há. Na língua nada é inocente. Ao separar as orações por ponto, obrigamos o leitor a fazer uma pausa maior. Realçamos a oração seguinte.

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