Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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Bahia, Bethânia e João Santana

24/02/2016 10:42

Dad Squarisi

Baiano não nasce. Estreia. Sobressai na música, na literatura, na erudição. Gil, Jorge Amado, Rui Barbosa & cia. ilimitada servem de exemplo. Maria Bethânia é a estrela da vez. Graças a pacto com os orixás, faz milagres. O mais recente: quebrou o jejum da Mangueira. Depois de 19 anos, a verde-rosa levou a melhor no carnaval do Rio.

A deusa agradece aos protetores. Respeitosa, oferece a eles a regência que a escola ensina. O verbo pede objeto direto de coisa e indireto de pessoa (a gente agradece alguma coisa a alguém): Ela agradece a homenagem recebida. Agradece aos jurados a homenagem recebida. No fim da festa, agradeceu a graça à Mãe Menininha.

Licença, linguinha?

O português é cheio de caprichos. Tem chiliques como criança mimada. Uma das explosões ocorre no troca-troca do nome pelo pronome. Os pequeninos o e lhe são fregueses. Com indesejável frequência, um usurpa o lugar do outro. Valha-nos, Deus! Explosões de indignação pipocam a torto e a direito.

O verbo agradecer, coitado, vive no centro da tragédia. Que tal poupá-lo? O ser a quem agradecemos é objeto indireto. Dá passagem ao lhe: A deusa agradece aos orixás. (A deusa lhes agradece.) Ela agradece aos jurados a homenagem recebida. (Ela lhes agradece a homenagem recebida.) Agradeceu a graça à Mãe Menininha. (Agradeceu-lhe a graça.)

Outro baiano

Na terra da Mãe Menininha, existem talentos pra dar, vender e emprestar. É o caso de João Santana. Marqueteiro nota 1.000, ele faz milagres. Embala candidatos em papel celofane. O resultado é um só — vende ilusões. A mais recente façanha: transformou um bolinho de feijão em celebridade. O sagrado acarajé virou moeda que paga propina. Não só. Substantivo comum, ganhou pedigree. Deu nome à 23ª fase da Lava-Jato. Acarajé tornou-se substantivo próprio.

Por falar em Bahia

Baia é o compartimento onde se guardam animais. Baiá é a caçada na qual o caçador se envolve em ramagens verdes. Baía é o golfo estreito que se alarga para o interior. Então, por que diabos Bahia, o estado de Castro Alves, Carlinhos Brown e Caetano Veloso, se escreve com o h bem no meio? Eis a razão. No passado, para indicar o hiato (e a pronúncia correta), se usava o h. Só depois o acento entrou na história. Escrevia-se bahia, sahida, pirahy. Sem o h, a leitura seria báia, sáida, pirái. Mas devagar com o andor: as palavras derivadas de Bahia perdem a letra muda que não fala, mas ajuda: baiano, baianidade.

De papo pro ar
Por que Bahia manteve o h e Piauhy mudou para Piauí? Paulo José Cunha responde: “Os piauienses preferiram simplificar. Já os baianos, que tinham mais o que fazer, disseram: `Mexa não, meu bichim, tome aqui um golim de água de coco, relaxe e deixe assim mesmo com o h. É tão bonitim, não é?´Por isso o h continua dormindo de papo pro ar, bem no meio da Bahia”.

Algo mais

O mineiro Antonio Clarete Vilela leu a coluna passada. Nela, havia a explicação da designação “última flor do Lácio” dado à língua portuguesa. Ele completa: “Nossa língua originou-se do latim, que surgiu na região italiana do Lácio. Na forma vulgar, era falada pelas classes baixas da população. As classes altas falavam o latim clássico. Além do português, tiveram origem no latim vulgar o italiano, o espanhol e o francês. O português é a mais recente delas, ou seja, a última flor. Assim, Bilac se refere ao português como “última flor do Lácio inculta e bela”. Inculta porque originada do latim vulgar. Bela porque ela simplesmente o é”.

Leitor pergunta
Eminente ou iminente?

Jonas Macedo, Divinópolis

Uma letra faz a diferença. E como! Eminente é ilustre, elevado (eminente ministro, edifício eminente). Iminente, prestes a acontecer (chuva iminente, morte iminente).

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