Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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A gíria é a poesia do pobre

25/11/2016 09:00

Dad Squarisi


Recado
“A gíria é a poesia do pobre.”
John Moore

A água que vem do céu
Depois de longa seca, a chuva é pra lá de bem-vinda. O verde renasce, os pássaros gorjeiam, as flores distribuem cores cidade afora. Mas existe o outro lado da moeda. Entre eles, os violentos temporais que provocam enxurradas e deslizamentos. A população sofre. 
Na natureza nada se perde. Tudo se aproveita. A tragédia também ensina lições. Uma delas trata da grafia. A questão: por que enxurrada se escreve com x e enchente com ch? O som é o mesmo. O começo das palavras também.
A razão 1
O português é pobre em regras de grafia. Uma das poucas se refere ao ditongo en-. Depois das duas letrinhas, o x pede passagem: enxaqueca, enxada, enxaguar, enxame, enxergar, enxoval, enxofre, enxugar.
A razão 2
Enchente joga em outro time. É o da fidelidade à família. Ele descende de cheio, que gerou encher, que originou enchente. Todo o clã se escreve com ch. O mesmo ocorre com charque (encharcar), chique (enchiqueirar), chiqueiro (enchiqueirar), chaleira (enchaleirar). E por aí vai.

Lá e cá
Donald Trump prometeu erguer um muro para separar os Estados Unidos do vizinho México. A ideia era tão doida que ninguém a levou a sério? Falso. Muitos a levaram. Anunciada a vitória do republicano, turbas saíram às ruas com cartazes. Dois textos sobressaíram. Um: constrói o muro. O outro: construa o muro. 
Ambas as formas recorrem ao imperativo. O mandão pode mandar e desmandar. O mandão, chamado afirmativo, forma-se de dois tempos. A 2ª pessoa (singular e plural) recorre ao presente do indicativo sem o –s final. As demais pessoas pedem ajuda ao presente do subjuntivo -- sem tirar nem pôr. Assim:
Presente do indicativo: construo, constróis, constrói, construímos, construís, constroem
Presente do subjuntivo: que eu construa, tu construas, ele construa, nós construamos, vós construais, eles construam
Imperativo afirmativo: constrói (tu), construa (você), construamos (nós), construí (vós), construam (vocês).

O desmandão
O imperativo negativo se forma todinho do presente do subjuntivo. Basta antecedê-lo do advérbio não: não construas (tu), não construa (você), não construamos (nós), não construais (vós), não construam (vocês).

Tem lógica
Reparou? O imperativo não se conjuga na 1ª pessoa do singular (eu). Por quê? Porque ninguém dá ordem a si mesmo. No momento que o faz, torna-se 2ª pessoa. Em bom português: deixa de ser a pessoa que fala e passa a ser a pessoa com quem se fala (tu, você).

Construir
Eta verbinho guloso. Construir joga em duas equipes. Uma: sem acento. Outra: com acento. Veja: construo, constrói, construímos, constroem; construí, construiu, construímos, construíram; construía, construía, construíamos, construíam; construirei, construirá, construiremos, construirão. E por aí vai.
A pergunta: por que constrói tem acento e constroem não tem? A resposta: o ditongo aberto ói ganha grampinho nas oxítonas. É o caso de herói, heróis, destrói, destróis. Constroem não se grafa com o ditongo ói. Xô, agudo!

Acordo de Paris
Em dezembro do ano passado, quase 200 países-membros da ONU assinaram o Acordo de Paris. O texto tem objetivo claro: manter o clima do planeta amigável para a espécie humana. Foi o primeiro passo. O segundo exige a ratificação do acerto. Lembre-se: ratificar significa confirmar.
Sem confusão
Ratificar e retificar se parecem, mas não se confundem. Ratificar é confirmar. Retificar, modificar: Donald Trump disse que os Estados Unidos não ratificarão o Acordo de Paris. É preciso retificar pontos do contrato. 

Leitor pergunta
O nome de moeda se escreve com inicial minúscula ou maiúscula?
Roberto Gonzalez, Porto Alegre
Nome de moeda é substantivo comum. Escreve-se com inicial pequenina: real, dólar, euro, libra.

Compras de fim de ano ou compras de final de ano?
Clara Beatriz, Brasília
Ambas as formas estão corretas. Prefiro fim de ano. É mais curto.

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