Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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Família complicada

05/12/2016 12:00 | Atualização: 05/12/2016 12:10

Dad Squarisi

Recado
“O estilo não é o enfeite: o estilo nasce do caráter mesmo do escritor e é a marca de sua personalidade.”
Manuel Bandeira

Adeus, Fidel

Fidel morreu. A imprensa virou a vida do cubano pelo avesso. No sábado, os noticiários não falavam de outra coisa. No domingo também. Um dos fatos que voltaram à tona foi a aproximação da ilha com os Estados Unidos. O Vaticano entrou nos telejornais. 

A razão: a diplomacia do pequenino Estado desempenhou papel-chave no processo. O verbo intermediar sobressaiu. Viger lhe fez companhia. Falir foi atrás. Com eles, impiedosas pisadas na língua. 


Família complicada

Intermediar deriva de família pra lá de traiçoeira. O pai é mediar, que pertence à gangue do MARIO. Conhece? O nome da turma barra pesada se formou com a letra inicial de cada membro — mediar, ansiar, remediar, incendiar e odiar. Todos se conjugam como odiar.

Assim: odeio (medeio, anseio, remedeio, incendeio), odeia (medeia, anseia, remedeia, incendeia), odiamos (mediamos, ansiamos, remediamos, incendiamos), odeiam (medeiam, anseiam, remedeiam, incendeiam). Etc. e tal.

Muitos falaram e escreveram “A diplomacia do Vaticano intermedia conflitos com grande competência”. Intermedia? Nãoooooooooooooooo! Intermedeia.

Em vigência 

“O regime implantado por Fidel continuará vigindo?”, perguntam-se analistas de Europa, França e Bahia. Ops! Olho vivo! “Vigir” não existe. A forma é viger. Intolerante, o dissílabo odeia o a e o o. Por isso, só se conjuga nas formas em que essas vogais não aparecem depois do g. 

A 1ª pessoa do presente do indicativo (eu vigo) não tem vez. Nem o presente do subjuntivo. Que eu viga? Uhhhhhhhh! Nas demais, é regular. Conjuga-se como viver: vives (viges), vive (vige), vivemos (vigemos), vivem (vigem), vivi (vigi), vivia (vigia). E por aí vai. 

Está quebrada 

“O povo cubano quer tomar café da manhã, almoçar e jantar. O regime castrista não dá conta de satisfazer as necessidades básicas da população. Faliu.” Verdade? Pode ser. O indiscutível é isto -- falir joga no time dos preguiçosos. 

Defectivo, só se flexiona nas formas em que aparece o i depois do l (falimos, falis, fali, falia, falira, falirá, faliria). Sabe a razão da manha? Se ele abrir as porteiras para o a, e ou o, será confundido com falar (falo, fale, fala). Já imaginou? Ninguém quer perder a personalidade. 

Sobretudo se a língua, pra lá de rica, oferece outras possibilidades de substituir as formas inexistentes: abrir falência, quebrar. Mais: no sentido de quebrar financeiramente, falir rejeita complemento. Por isso, ninguém pode “falir uma empresa ou um país”. Pode fazer uma empresa ou um país quebrar.   


Leitor pergunta

Tenho dificuldade na conjugação do verbo adequar. A forma “eu adéque” me soa mal. Ela está correta? 
Carmen Celita, Pelotas

 
Há verbos e verbos. Uns adoram a família. São os rizotônicos. A sílaba tônica cai sempre no radical. É o caso de cantar, comer e dividir. Outros ignoram a raiz. São os arrizotônicos. A sílaba tônica cai sempre fora do radical. É o caso de adequar. Ele só se conjuga nas formas em que a fortona cai fora do radical. 

O xis do problema é o presente do indicativo. Eu adéquo? Nem pensar. A sílaba tônica cairia no radical. Por isso, só o nós e o vós têm vez (adequamos, adequais). O presente do subjuntivo é formado da primeira pessoa do singular do presente do indicativo. Sem ela, nada feito. 

Os demais tempos e modos são regulares: adequei, adequou, adequamos, adequaram; adequava, adequava, adequávamos, adequavam; adequarei, adequará, adequaremos, adequarão; adequaria, adequaria, adequaríamos, adequariam; adequasse, adequasse, adequássemos, adequassem; adequar, adequarmos, adequarem; adequando; adequado.


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