Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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Palavra vírgula nasceu no latim

04/01/2017 11:18

Dad Squarisi

Recado
“A gramática precisa apanhar todos os dias para saber quem é que manda.”
Luiz Fernando Verissimo

Pausas e manhas (1)

“Toda unanimidade é burra”, repetia Nelson Rodrigues. Será? O teatrólogo sem papas na língua talvez tenha razão. Por sorte é rara a opinião compartilhada por 100% das pessoas. Há sempre uma ou outra que discorda. Viva!
A referência ao autor de Toda nudez será castigada não se deve ao acaso. Vem a propósito de uma quase unanimidade linguística. Trata-se do emprego dos sinais de pontuação e notações léxicas. Ponto, vírgula, ponto e vírgula, dois-pontos, travessão, parênteses dão nó nos miolos de gregos, troianos e baianos. 
São o maior tropeço no Enem e nos concursos públicos. Que tal acabar com o calo tão doloroso? É possível. A coluna vai abordar o assunto passo a passo. O primeiro será a vírrgula. Vamos lá?

Vírgula (1)
A palavra vírgula nasceu no latim. Na língua dos Césares, queria dizer varinha. Também significava linha ou pequeno traço. Depois, virou sinal de pontuação. Indica pausa rápida, menor que a do ponto. 

Polêmica

A dondoca atravessou os séculos. No percurso, suscitou discussões. Alguns afirmam que seu emprego é questão de gosto. A gente põe o sinalzinho onde tem vontade. Outros dizem que basta ler a frase. Parou pra respirar? Pronto. Taca-lhe a vírgula. Aí pinta um problema. Como os gagos e os asmáticos se viram?
Outros, ainda, acham que devem usar todas as vírgulas a que têm direito – as obrigatórias e as facultativas. É o caso do amanuense Borjalino Ferraz. O homem estudou o assunto anos a fio. Aprendeu tudo. Esnobava o saber em ofícios e memorandos. Não deixava passar uma.
O chefe reclamou do exagero. “Desse jeito”, disse ele, “o amigo acaba com o estoque. O município não tem dinheiro pra comprar vírgulas novas.” O puxão de orelhas entrou por um ouvido e saiu por outro. O prefeito não pôde fazer nada. Borjalino tinha estabilidade.

Xô, palpites

O emprego da tão temida pausa é importante demais para ser entregue a palpiteiros. Ele obedece a regras objetivas. São apenas três. Conhecendo-as, dominam-se 99,9% dos casos. Aí, adeus, dúvidas. Adeus, tropeços. Adeus, recados trocados. Sobretudo, adeus, perda de pontos, de promoções e de amores.

As regras

A vírgula separa:
1. Termos e orações coordenados
2. Termos e orações explicativos
3. Termos e orações deslocados
Como diz o esquartejador, vamos por partes. Comecemos pelos termos coordenados.

Termos coordenados
Coordenado significa ordenado ao lado do outro. Imagine que você esteja no cinema. Há vários espectadores. Um é independente do outro. Tem a própria cabeça, o próprio tronco, os próprios membros, olhos, nariz, boca. Cada um escolhe o lugar e senta-se. Pra não ficarem embolados, o descanso da poltrona os separa. Ficam coordenados.

Imitação
Na língua também aparecem termos independentes. A única relação entre eles é estarem postos um ao lado do outro. Sempre que numa oração aparecer mais de um sujeito, mais de um objeto, mais de um adjunto, haverá termos coordenados. Como os cinéfilos, eles precisam ser separados. Há dois jeitos. Um deles: recorrer á vírgula. O outro: pedir ajuda à conjunção.

Eis exemplos:
Paulo, Luís e Maria (sujeito composto) foram cinema.
Gosto de cinema, teatro, música (objeto composto).
José viaja de trem, carro, ônibus e avião (adjunto adverbial composto).
Brasília é uma cidade moderna, organizada, cosmopolita (adjunto adnominal composto).

Brincalhão
Na separação dos termos compostos, o e brinca de esconde-esconde. Ora aparece. Ora some. É capricho? Não. Ele manda um recadinho. Examine as duas frases:
Brasília é uma cidade moderna, organizada e cosmopolita.
Brasília é uma cidade moderna, organizada, cosmopolita.
A presença do e diz: Brasília só tem essas características. Nenhuma mais. A ausência do ezinho significa que a capital dos brasileiros tem outras qualidades além das citadas. Equivale ao etc. 

Etc.
Etc. é recurso de preguiçoso. Você não precisa dele. Mande-o pras cucuias.

Leitor pergunta
Ao falar sobre o aumento do valor das passagens, o governador do Distrito Federal falou em “subzídio”. Assim mesmo: deu ao s a pronúncia de z. Está certo?
Carlos Meira, Guará
Subsídio joga no time de subsolo. Em ambas as palavras, o s soa do mesmo jeitinho.


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