Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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Nem sempre o adjetivo restringe o sentido do nome

25/01/2017 10:00 | Atualização: 14/02/2017 10:15

Dad Squarisi

Recado
“A literatura é o laboratório do possível.”
Ricardo Piglia

Pausas e manhas (5)

Monotonia? Xô! A mesmice não combina com a língua, que gosta de variedade. Daí por que se define como conjunto de possibilidades. Flexível, oferece vários jeitos de dizer a mesma coisa. Quer ver? Veja o exemplo:

O aluno estudioso tira boas notas.
O aluno que estuda tira boas notas.

As frases dizem que há alunos e alunos. Não é qualquer um que tira boas notas. Só chega lá quem se debruça sobre os livros. Numa, o termo restritivo é adjetivo (estudioso). Noutra, oração adjetiva (que estuda). A pontuação coincide. Nada de vírgula.

Sem escolha

Nem sempre o adjetivo restringe o sentido do nome. Às vezes, explica-o. A presença ou ausência dele não faz diferença. É como o zero à esquerda. Por isso, vem sempre, sempre mesmo, separado por vírgula. Observe:

O homem, mortal, tem alma imortal.
O homem, que é mortal, tem alma imortal.

Ficou clara a diferença entre restritiva e explicativa? A restritiva acrescenta informação que reduz a abrangência do nome. A explicativa diz mais do mesmo. Nem todo aluno é estudioso. Mas todo homem é mortal.

Vamos testar?
Leia as frases. Analise os termos destacados. Depois, pontue-os adequadamente. Separe por vírgula termos e orações explicativos. Deixe livres e soltos os restritivos:

Brasília que é a capital do Brasil foi a primeira cidade moderna declarada Patrimônio Cultural da Humanidade.
As cidades que foram capitais mantêm herança do passado.
Os presídios que tiveram rebeliões sofrem com superpopulação carcerária.
Eu Maria da Silva requeiro o seguinte...
A multa que paguei me custou R$ 126.
O trabalho que faço me dá muito prazer.
Michel Temer que preside o Brasil é de origem libanesa.
O Congresso Nacional composto por senadores e deputados funciona em Brasília.

Acertou?

Brasília, que é a capital do Brasil, foi a primeira cidade moderna declarada Patrimônio Cultural da Humanidade. (Brasília e capital do Brasil são a mesma coisa. A oração é explicativa.)

As cidades que foram capitais mantêm herança do passado. (Nem todas as cidades foram capitais. A oração acrescenta informação nova. Por isso é restritiva.)

Os presídios que tiveram rebeliões sofrem com superpopulação carcerária. (Nem todos os presídios tiveram rebeliões. A oração destacada traz novidade. Por isso restringe o sentido do nome.)

Eu Maria da Silva requeiro o seguinte...(Eu sou eu. O que acrescento é explicação.)

A multa que paguei me custou R$ 126. (Nem toda multa custa R$ 126. Mas a multa que paguei.)

O trabalho que faço me dá muito prazer. (Nem todo trabalho me dá muito prazer. O que faço, sim, me faz feliz.)

Michel Temer que preside o Brasil é de origem libanesa. (O termo destacado não acrescenta novidade a Michel Temer. É mais do mesmo. Daí ser explicativo.)

O Congresso Nacional composto por senadores e deputados funciona em Brasília. (Não há um Congresso Nacional composto por deputados e senadores e outro por outras criaturas.)

Desafio
Esta questão caiu no vestibular. Pegou a meninada pelo pé. Veja se você se safaria:

*Os cinco filhos de João que chegaram do Rio estão em Belo Horizonte.

A pergunta: quantos filhos tem João?
( ) Tem cinco
( ) Tem mais de cinco

E agora? Quem responde é a oração adjetiva. Restritiva ou explicativa? Sem vírgulas, é restritiva. Então José tem mais de cinco filhos. Se fossem só cinco, “que chegaram do Rio” estaria cercadinha com o sinal gráfico.

Virtudes

“O estilo”, diz Anatole France, “tem três virtudes – clareza, clareza, clareza.” Saber identificar o termo restritivo ou explicativo não constitui problema só de correção. Muitas vezes afeta a clareza.

Leitor pergunta
Face a face tem crase?
Almeirinda Pacheco, Planaltina

Guarde esta superdica, Almeirinda. Nenhuma expressão escrita com palavras repetidas leva acento grave: cara a cara, face a face, semana a semana, frente a frente, gota a gota, uma a uma.

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