Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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Vocativo pertence à família de vocação

17/02/2017 09:00

Dad Squarisi

Recado
“Fatos são simplesmente fatos. Não aceitam adjetivação.”
Paulo Cesarino Costa

Pausas e manhas (9)

Vocativo pertence à família de vocação. Ambos vêm do latim vocare, que significa chamar. Vocação é o chamamento do coração. Vocativo, o chamamento do ser a quem nos dirigimos. Seguir a vocação é atender a voz interior, ouvir o apelo da alma. Recorrer ao vocativo é alimentar a esperança de ser ouvido.

Talvez por ser tão importante, o vocativo se sente especial. Tão especial que não se mistura. Recusa-se a fazer parte dos termos essenciais, integrantes ou acessórios da oração. Mantém-se à margem. Por isso vem sempre – sempre mesmo – separado por vírgula. Veja:

Maria, você pode fechar a porta?
Você, Maria, pode fechar a porta?
Você pode, Maria, fechar a porta?
Você pode fechar a porta, Maria?

Mais exemplos
Paulo, tome um banho quentinho.
Tome, Paulo, um banho quentinho.
Tome um banho quentinho, Paulo.
*
Alô, Sílvio, tudo bem?
Alô, tudo bem, Sílvio?
*
Deus, ó Deus, onde estás que não me escutas?
Onde estás, Deus, ó Deus, que não me escutas?
Onde estás que não me escutas, Deus, ó Deus?
*
Viu? O vocativo aparece em diferentes lugares – no começo, no meio e no fim do período. Sem se importar com a posição, mantém a característica. Isola-se.

Truque

Muitos confundem o sujeito e o vocativo. Como separar alhos de bugalhos? É fácil. O vocativo pode ser antecedido de ó. O monossílabo, empregado com naturalidade, sem forçar a barra, denuncia o chamamento.

Pra frente, (ó) Brasil!
(ó) Brasil, pra frente.
Fora, (ó) corruptos.
(ó) Corruptos, fora.
(ó) Motorista, siga as instruções.
Siga as instruções, (ó) motorista.

Cadê o sujeito?
O ó identifica o vocativo. Mas... cadê o sujeito? Está oculto. Daí a confusão de gregos, romanos e baianos. Veja a manha:

Paulo, tome (você) um banho quentinho.
Deus, ó Deus, onde (tu) estás que não me escutas?
Paulo e Luís, vamos (nós) ao clube?

Fato 1
Há uma frase repetida de norte a sul do país. Com certeza você já a repetiu ou ouviu alguém repeti-la. Ei-la:

*Mãe só tem uma.

Fato 2
A dona de casa se preparava para receber a visita. Queria fazer bonito. Enquanto servia lanche, pediu ao filho que pegasse duas garrafas de refrigerante na geladeira. Ele foi e voltou com a notícia:
– Mãe, só tem uma.

Viu? A vírgula transformou mãe em vocativo. Que diferença!
Mãe só tem uma.
Ó mãe, só tem uma.

Leitor pergunta

Quais das frases abaixo estão corretas?

Esta agenda pertence a Márcia.
Esta agenda pertence à Márcia.
Esta agenda pertence a Breno.
Esta agenda pertence ao Breno.
Márcia Kasai, lugar incerto
Todas estão corretas. O xis da questão é o nome de pessoas. Em algumas regiões, ele aceita o artigo. Dizemos a Maria, o Breno. Em outras, dispensa o pequenino. Dizemos simplesmente Maria, Breno.
Como a crase é o casamento de dois aa, o sinalzinho da crase denuncia que usamos artigo antes do nome próprio. A ausência, que não usamos. O a, então, é a preposição exigida pelo verbo pertencer (alguma coisa pertence a alguém).
***
Lesão sub-insular ou subinsular? A ausência do hífen me dá a impressão de pronúncia incorreta, tirando a pausa entre o sub- e a ínsula, tornando uma palavra nova de pronúncia estranha.
Marco Antônio Lara, lugar incerto

O prefixo sub- pede hífen quando seguido de h, b ou r (sub-herói, sub-bloco, sub-raça). No mais, é tudo colado: subinsular, subestimar, subsolo. 

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