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"Na dúvida, use ponto", aconselha o manual de estilo

23/02/2017 09:30 | Atualização: 22/02/2017 10:23

Dad Squarisi

Recado
“Quem tem medo do ridículo não alcança o extraordinário.”
Margarida Lima

Pausas e manhas (13)

“Na dúvida, use ponto”, aconselha o Manual de estilo da Editora Abril. Marcelo memorizou a dica. Outro dia, ele se deliciava com o livro A caverna, de José Saramago. Na obra, o autor português que ganhou o Prêmio Nobel mantém a marca registrada – longos períodos separados só por vírgula.

Eis um:

Há quem leve a vida inteira a ler sem nunca ter conseguido ir mais além da leitura, ficam pregados à página, não percebem que as palavras são apenas pedras postas a atravessar a corrente de um rio, se estão ali é para que possamos chegar à outra margem, a outra margem é que importa.

Teste

Marcelo fez um teste – seguiu a dica da Abril. Usou pontos. O resultado:

Há quem leve a vida inteira a ler sem nunca ter conseguido ir além da leitura. Ficam pregados à página. Não percebem que as palavras são apenas pedras postas a atravessar a corrente do rio. Se estão ali, é para que possamos chegar à outra margem. A outra margem é que importa.

E daí?

Valeu o exercício. Mas o tamanho da frase não preocupa os gênios da literatura. Graças à licença poética, o escritor segue as regras da inspiração. Pode tudo. Até atropelar a gramática.

Mas, para estudantes, jornalistas, funcionários públicos, empregados de empresa e os mortais em geral, a história tem outro enredo. Eles não escrevem para emocionar. Escrevem para dar recados claros, concisos e corretos. Ao menor tropeço, lá vem a conta. Vestibulando perde a vaga. Servidor leva puxão de orelha. Executivo deixa a promoção pro concorrente. É um pega pra capar. Valha-nos, Deus!

O ponto

A frase curta dá uma ajudinha. Ela tem duas vantagens. Uma: diminui o número de erros com pontuação, concordância, correlação verbal. A outra: torna o texto mais claro. E clareza é a maior qualidade do estilo. Montaigne, há 400 anos, ensinou: “O estilo deve ter três qualidades – clareza, clareza, clareza”.

Como chegar lá? Como fugir das frases que se perdem no caminho? Vinicius de Moraes deu a receita. “Uma frase longa”, disse ele, “não é nada mais que duas curtas”. Desmonte as compridonas. Use ponto. Siga as duas dicas sugeridas a seguir.

Dica 1

Cace os gerúndios do texto. Sublinhe-os. Depois, substitua-os por ponto. Assim:

Governadores afundados em dívidas batem às portas do Palácio do Planalto na esperança de alterar a Lei de Responsabilidade Fiscal podendo, se tiverem êxito, gastar mais do que arrecadam, fazendo farra com o dinheiro público.

Com um chega pra lá no gerúndio, o período fica deste jeitinho:

Governadores afundados em dívidas batem às portas do Palácio do Planalto na esperança de alterar a Lei de Responsabilidade Fiscal. Se tiverem êxito, poderão gastar mais do que arrecadam. Aí, farão farra com o dinheiro público.

Dica 2

Transforme a oração coordenada em novo período:

Flamengo e Botafogo prometiam partida emocionante na disputa da Taça Guanabara, no entanto o confronto de torcidas deixou um morto e sete feridos.

Com ponto, dá para respirar fundo. Coisa boa!

Flamengo e Botafogo prometiam partida emocionante na disputa da Taça Guanabara. No entanto, o confronto de torcidas deixou um morto e sete feridos.

Equilíbrio

Só frases curtas têm vez? Claro que não. Dê preferência às menorezinhas. Mas não casse as longas. Fique com a coluna do meio.

Leitor pergunta
Vou à missa? Vou para a missa?
Gilberto Costa, Porto Alegre

Ir a indica curta permanência. É o velho vv (vai e volta): Vou à missa. Iremos ao teatro. Fomos ao clube.
*
Ir para dá ideia de demora ou do lugar onde se mora, se trabalha, se estuda: Vou pra casa. Vou-me embora pra Pasárgada. Vá para o inferno. Vou para Lisboa. Lá, pretendo fazer o curso de pós-graduação.

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