Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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Medo e curiosidade

24/04/2017 10:00

Dad Squarisi

Delatar ganhou a boca do povo e da elite. De um lado, estão os que tremem só em pensar na trissílaba. Com conta no cartório, rogam a Deus por um milagre — que Deus feche os olhos e os deixe fora da lista suja. De outro, encontram-se os curiosos. Sem ter participado de falcatruas, querem conhecer a turma que engordou a conta bancária com o chorado imposto dos brasileiros.


Tanto interesse gerou a curiosidade. Qual o berço da trissílaba que estremece o mundo empresarial e político tupiniquim? Ela veio do latim delatum. Na língua dos Césares e na nossa, tem o mesmo significado — denunciar, contar, referir. Em bom português: bater a língua nos dentes e jogar luz sobre os fatos que estavam no breu.

Delação é cultura

Emílio Odebrecht fala manso. E sorri. Sorri muito. Como prova de quem não nasceu ontem, escolhe as palavras. Em vez de pronunciar vocábulo chocante, que causa repulsa, recorre a eufemismos. Adoça o termo. Um exemplo: substitui propina por ajuda. Parece avô falando com o neto, não?

O delator criou um eufemismo. Há outros. Vários outros. Um deles: morte. Muitos sentem medo de pronunciar a dissílaba. O que fazem? Trocam seis por meia dúzia. Manuel Bandeira chamou-a de “a indesejada das gentes”. Outros dizem falecer, viajar, passar desta pra melhor, vestir paletó de madeira, bater as botas.

Diabo não fica atrás. A língua oferece mil artimanhas para fugir do chifrudo: demo, bicho, anjo rebelde, anhangá, beiçudo, canhoto, cão, coxo, coisa ruim. Vade retro, satanás!

Dedo-duro

O delator conta tudo. No caso da Odebrecht, fala de corrupção & cia. amante da roubalheira. Dá nome aos bois. Aponta participantes de esquemas pra lá de especializados. O povo sabido lhes dá um apelido. É dedo-duro.

Por falar nisso...

Ele é dedo-duro. E ela? Ela também. Duro é o dedo. Não tem feminino. Ele é dedo-duro. Eles, dedos-duros. Ela, dedo-duro. Elas, dedos-duros.

Piada

Os acusados da Lava-Jato se defendem como podem. Além de juntar provas, indicam testemunhas. É o caso de Lula. O ex-presidente apresentou lista de 87 nomes. O número não passou despercebido. De um lado, provocou surpresa. De outro, piadas. Uma delas veio do Macaco Simão. “Lula tem mais testemunhas que Jeová”, escreveu ele.

Testemunha x testemunho

O gênero faz a diferença. Testemunha e testemunho servem de prova. O feminino se refere à pessoa. Joga no time de vítima e criança. Não apresenta nenhuma diferença de gênero. Nem o artigo muda: Ela é a testemunha de acusação. Ele é a testemunha de defesa. Ela é a criança sobre a qual lhe falei. Ele é a criança sobre a qual lhe falei. Maria foi a única vítima do acidente. Paulo foi a única vítima do acidente.

Testemunho, assim, no masculino, pertence a outra equipe. Não se refere a homem ou mulher. Mas à ação por eles praticada: O testemunho de Marcelo jogou por terra os argumentos da defesa.

Leitor pergunta


Nome de moeda se escreve com letra maiúscula ou minúscula?
Joana Cruz, BH

Por mais valiosa que seja, Joana, a moeda joga no time dos vira-latas. Escreve-se com a inicial mixuruca: real, dólar, euro, dinar, libra.

***

Na escritura, consta que minha casa está situada à Rua Coronel Joaquim. Fiquei em dúvida sobre a crase. Substituí a palavra feminina (rua) por uma masculina (beco). Levei um baita susto. Como alguém pode residir ao beco Coronel Joaquim?
José Sereno, Natal

Ops! Nenhuma casa está situada à rua. Nem ao beco. Está situada na rua. Ou no beco. Comprei uma casa situada na Rua dos Portais.

A mesma regra vale para residir e residente: Sou residente em São Paulo, na Avenida Paulista. Resido em São Paulo, na Avenida Paulista.

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