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O elitista

04/05/2017 10:00

Dad Squarisi

A maioria dos verbos são pessoais. Comuns, rotineiros e sem charme, conjugam-se em todas as pessoas. Veja, por exemplo, o laborioso trabalhar — eu trabalho, tu trabalhas, ele trabalha, nós trabalhamos, vós trabalhais, eles trabalham. Ufa! O haver joga em outro time. Diferente, quer ser especial. No sentido de ocorrer e existir, é impessoal. Na contagem de tempo também. Sem sujeito, só se conjuga na 3ª pessoa do singular. Por isso o apelidaram de verbo singular. Que tal conhecer os caprichos de tão sofisticada criatura?


Contagem de tempo

A história tem dois lados. Um, velho como usar suíças e pincenês. Trata-se do há na contagem de tempo. O outro, igualmente idoso, é pouco conhecido. Joga no time dos que escrevem farmácia com ph. É o havia também na indicação de tempo. Ambos têm dois pontos comuns. Um: indicam tempo passado. O outro: são substituíveis por fazer. Há vira faz. Havia rima com fazia: Morei no Rio há (faz) dois anos. Cheguei há (faz) pouco. João passou o fim de semana com o irmão. Eles não se viam havia (fazia) três meses. Rafael mudou-se ontem. Morava ali havia (fazia) dois anos.

Superdica: o segredo está no ponto final do tempo. Com o há, a contagem acaba no momento atual. Com o havia, antes — imperfeito pede imperfeito.

Existir e ocorrer

Alguém disse que a língua é um sistema de ciladas. Pensava, com certeza, no haver. Na contagem de tempo passado e na acepção de ocorrer e existir, o ardiloso só se flexiona na 3ª pessoa do singular. Lidar com ele parece difícil. Mas não é. Basta entender-lhe as manhas: Acompanho as tentativas que houve (existiram) até aqui. Houve (ocorreram) poucos distúrbios no jogo. Havia (existiam) boas ofertas na loja.

Por que se faz tanta confusão com o haver? Muitos esquecem que o sofisticado não tem sujeito. Com medo de errar, imaginam que o objeto direto seja o sujeito. Bobeiam. Quando se diz "houve poucos distúrbios", distúrbios não é sujeito. É objeto direto. O verbo nem olha pra insignificante criatura.

Contágio

A impessoalidade é contagiosa. Os auxiliares do haver não têm saída. Tornam-se impessoais: Deve haver muitos distúrbios na cidade. Ia haver ofertas de casas no mercado. Pode haver leilões no fim de semana.

Superdica

Pintou a tentação de flexionar o verbo haver? Ops! Pare e pense. No sentido de ocorrer e existir, ele é invariável, irremediavelmente fiel à 3ª pessoa do singular. Por via das dúvidas, risque o houveram do seu vocabulário. Você nunca o usará.

Há x atrás

Olho vivo! O há odeia o atrás. Usá-los na mesma frase é baita pleonasmo. Há indica passado. Atrás também. Fique com um ou outro: Acabei o curso há seis meses. Acabei o curso seis meses atrás.

O porvir

O futuro? Na indicação do porvir, só a preposição a tem vez: Daqui a dois anos acabo o estágio. O avião chega daqui a pouco. A um ano da eleição, faltam candidatos.

Haja visto x haja vista

Haja visto ou haja vista? Depende. Haja visto é tempo composto do verbo ver (É importante que eu haja visto o filme pra poder opinar. Talvez Rafael haja visto os pais.) Haja vista quer dizer veja-se: Ele viu o filme, haja vista o comentário feito.

Erramos

A coluna passada disse que maio de 2007 tem cinco sextas, cinco sábados e cinco domingos. Bobeou. Tem quatro. Perdão, leitores.


Leitor pergunta

Reaver deriva de haver. Significa haver de novo, recuperar. Ele só se conjuga nas formas em que aparece o v de haver. No presente do indicativo, por exemplo, apenas o nós e o vós têm vez (reavemos, reaveis). O indolente não tem presente do subjuntivo. Mas exibe todas as formas do passado e futuro (reouve, reouvemos, reavia, reaverei, reouver, reouvesse).

Ops! Reavê, reaviu, reaveja não existem (seriam derivados de ver). Nem fazem falta. Recuperar e recobrar estão aí pra quebrar o galho. Lembre-se: o inferno está pululando de insubstituíveis.

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