Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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O quê dos quês

Antônio Cândido: "A clareza é um respeito pelo próximo, um respeito pelo leitor."

17/05/2017 10:00 | Atualização: 22/05/2017 16:21

Dad Squarisi

Época de Lava-Jato é época de perguntas e mais perguntas. Aí, claro, não dá outra. Os pronomes interrogativos fazem a festa. Entre eles, o quê sobressai. E é aí que os miolos se contorcem e formam nós. O monossílabo ora se grafa com chapéu. Ora sem, livre e solto como passarinho na floresta. Como acertar sempre? É moleza. Basta entender as malandragens das três letrinhas.


Chapéus e grampos

Guarde isto: acento e pronúncia formam par inseparável. Agudo e circunflexo só caem sobre a sílaba tônica. Em dissílabos, trissílabos e polissílabos, descobrir a fortona é fácil como passar criança pra trás na fila. Com os monossílabos, porém, a história muda de enredo. Os pequeninos obedecem às mesmas regras das oxítonas. Acentuam-se os terminados em a, e e o seguidos ou não de s. Veja: está (dá), estás (dás), pajé (dê), pajés (dês), vovó (dó), vovós (dós).

Vira-casaca

Nada de especial. Por que, então, o quê dá nó nos miolos? Porque o danado muda de time a torto e a direito. Ora é conjunção. Ora pronome. Ora substantivo. A primeira equipe não causa problemas. Apresenta-se sempre com a mesma cara. As duas outras dão enxaqueca. Às vezes pedem chapéu. Outras vezes dispensam o acessório. Que tal desvendar-lhes as manhas? Vamos lá.

1º time

A equipe da conjunção se apresenta com a mesma cara — sem acento: Disse que acabará o curso este ano. Negou que tivesse ligado o computador. Saia mais cedo, que vem chuva por aí.

2º time

Eta dor de cabeça! O desconforto tem duas causas. De um lado, a criatura tem o poder da mobilidade. Salta daqui para ali como macaco salta de galho. De outro, varia de classe gramatical. Passa de pronome a substantivo num piscar de olhos. E daí? O preço das mudanças é o acento. Quando usá-lo? Em duas oportunidades:

1. Quando o quê for substantivo. Aí será antecedido de pronome, artigo ou numeral. Como todo nome, tem plural: Modelos na passarela têm um quê de sedutor. Qual o mistério dos quês? Este quê não me confunde mais. Corte os quês da redação. Belo quê você introduziu no discurso. Quem mandou?

2. Quando o quê for a última palavra da frase — a última mesmo, coladinha no ponto: Trabalhar pra quê?

Riu, mas não disse por quê. Você se atrasou por quê? Ele se ofendeu com quê? Quero saber a razão do emprego desse quê.

É isso

Desvendados os dois empregos, o quê recolhe-se à própria insignificância. Redatores que arrancam os cabelos por causa do acentinho chegam à conclusão óbvia: não há por que temer o quê. Ele é mais manso que o gatinho lá de casa.

Teste tira-teima

Entendeu? Então faça o teste. Use o quezinho como manda a gramática:

Leio e escrevo sem dificuldade. Mas um que sempre me deu nó nos miolos. Trata-se da grafia do que. Com acento? Sem acento? Chuto. Acerto? Qual o que! A Lei de Murphy fala alto. O que pode dar errado dá. Fazer o que? A resposta é uma só. Estudar o que dos ques. Desvendados os mistérios do monossílabo, fica uma certeza. O que não é tão feio quanto parece. Veja por que.

Leitor pergunta

A entrega é em domicílio? A domicílio? Armou-se a confusão aqui em casa. A família se dividiu em dois grupos. Ninguém cede. Pode jogar uma luzinha no assunto?

Maria Inês Nogueira, Brasília


Que tal apelar para a analogia? A entrega é em casa, em escolas, em hospitais. E, claro, em domicílio.

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