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Eco que ecoa

10/06/2017 17:24

Dad Squarisi

A história vem lá de longe, da mitologia grega. Eco era uma mocinha pra lá de conversadeira. Falava sem parar. Muitos rapazes se encantavam com a voz da jovem e acabavam caidinhos de amor pela garota. Mas ela não queria saber de ficar. Nem de ficantes. Um dia aconteceu. Eco viu Narciso. Ah! Foi paixão à primeira vista. Mas o belo só olhava pra si. Nem sabia da existência da jovem. Ela, então, tomou uma decisão.


— Vou me declarar pra ele.

Não o fez. Sabe por quê? Foi castigo. Eco era muito amiga de Zeus, o deus dos deuses do Olimpo. Ele era casado com Juno, ciumenta que só. Certo dia, Zeus veio à Terra. Conheceu uma gatona tentadora e não resistiu à paixão. Eco se encarregou de distrair Juno enquanto o encontro rolava. Contava histórias sem fim. Mas a mulher descobriu. Furiosa, castigou a moça:

— Você me enganou com a língua. Pois, de hoje em diante, não vai mais falar. Só vai repetir o que os outros dizem.

Pobrezinha da Eco! Até hoje não pode dizer uma só palavra. Só repete as dos outros. Duvida? Quando você estiver num lugar grande e vazio, dê um grito. Vai ouvir a repetição da última sílaba da fala. É o eco que ecoa.

Herança

Eco enriqueceu o léxico português. Dela nasceram o substantivo eco e o verbo ecoar. Ecofonia, ecômetro e ecopatia vieram da mesma fonte.

Barbas de molho

Por que será? Nem os deuses sabem. Certas palavras caíram na boca do povo com a sílaba tônica trocada. O resultado é um só: a silabada bate pesado nos ouvidos. Quem sente o golpe não deixa por menos. Foge. E nos condena como Juno condenou Eco. Valha-nos, Zeus! Ensina-nos a pronúncia nota mil de vocábulos maltratados pela língua dos mortais. São sete.

Um

Subsídio joga no time de subsolo, subserviente, subsalário, subsaariano, subsimilar, subsíndico, subsinuoso. Em todas, o s que vem depois do sub se pronuncia ss. Sem tossir nem mugir.

Dois

Recorde, concorde e acorde orgulhosamente pertencem à equipe das paroxítonas. A sílaba mandachuva é cor sim, senhor. Dizer "récord"? É a receita do cruz-credo. Xô!

Três

Rubrica e fabrica são irmãzinhas inseparáveis. A força delas mora na casa do meio — bri.

Quatro

Nobel, Mabel, papel e cruel se pronunciam do mesmo jeitinho. A sílaba tônica é a última. Na dúvida, pense um pouco. Se Nobel fosse paroxítona, pertenceria à gangue de móvel e automóvel. Teria acento. Como não tem, a conclusão é uma só. O nome do prêmio mais cobiçado do planeta é oxítono e não abre.

Cinco

Ibero é a forma alatinada de ibérico. Uma e outra designam os originários da Península Ibérica, que engloba Portugal e Espanha. A sílaba tônica de ambas é a mesma — be.

Seis

Gratuito, fortuito e circuito são como unha e carne. Nas três, o ui forma ditongo. Não se separa nem com sangue, suor e lágrimas. Vamos combinar? Se a fortona recaísse no i, o acentão pediria passagem como em cuíca.

Sete

Linguiça, tranquilo, cinquentenário & cia. perderam os anéis, mas mantiveram os dedos. Em bom português: a reforma ortográfica lhes cassou o trema, mas a pronúncia nem ligou. Sabida, hein? A reforma é ortográfica. Só atingiu a grafia das palavras.

Leitor pergunta

Não sei o que está acontecendo com a língua portuguesa. No discurso falado, parece que as pessoas esqueceram a concordância dos pronomes. É bastante comum ouvirmos as seguintes formas: “O senhor pode esperar que já vou te trazer o formulário” ou “você não me disse quem te deu esta caneta". O que está acontecendo?

José Vasconcelos, lugar incerto


A mistura de pronomes, como você observou, é cada vez mais frequente na língua. A que se deve? Depende. Às vezes, à informalidade da fala. A pessoa sabe distinguir uma coisa da outra, mas opta pelo mais coloquial. Outras vezes, é primário malfeito. A escola não ensinou. Como não adianta olhar pra trás, o jeito é estudar, estudar e estudar. Aí, saírá esta forma com a naturalidade de quem anda pra frente: O senhor pode esperar, que já vou lhe trazer o formulário. Você não me disse quem lhe deu esta caneta.

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